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YEAH, HOUSTON, WIR HABEN BÜCHER!

e ai que tenho três livros de autoria publicada que fiz praticamente tudo neles e vou fixar esse post aqui com os três pra download e todos...

quarta-feira, 8 de julho de 2020

BELCHIOR – ELOGIO DA LOUCURA – 1988

BELCHIOR
ELOGIO DA LOUCURA
1988
– todas as letras e músicas de Belchior, exceto onde indicado
AMOR DE PERDIÇÃO
Entrar, ficar em ti
Tem sido o meu melhor perigo
Primeiro o meu viver
Segundo este vil cantar de amigo
Depois não pressenti sequer
O que no pré em meio após
Quer de si
Quer de mim
Quer de deus uma mulher
Ama e faz o que quiseres
Tu me falaste eu repeti
Meu sim
Nosso amor se perdeu
Entre tantos quereres
E hoje já era o que era
Para não ter fim
Nosso amor se perdeu
Entre tantos quereres
E hoje já era o que era
Para não ter fim
Odeio a tua paz
Rejeito o teu perdão
Pois qualquer sofrimento
Passa mas o ter sofrido não
O amor que diz talvez
Não é gozado nem paz
Deixa sempre a desejar
Deixa no ar atrás
Casos descasos
Desastres da paixão
Oh real ilusão
O bem e o mal em vão
Casos descasos
Desastres da paixão
Oh real ilusão
Amor de perdição
Odeio a tua paz
Rejeito o teu perdão
Pois qualquer sofrimento
Passa mas o ter sofrido não
O amor que diz talvez
Não é gozado nem paz
Deixa sempre a desejar
Deixa no ar atrás
Casos descasos
Desastres da paixão
Oh real ilusão
O bem e o mal em vão
Casos descasos
Desastres da paixão
Oh real ilusão
Amor de perdição

ELEGIA OBSCENA
Meu bem,
admire o meu carro e goze sozinha,
enquanto fumo um cigarro
mas cuidado!, atenção!
- Oooh! oooh!...  
não vá quebrar mais nenhum coração.
Podemos até nos deitar
mas você saberá...
saberá que será
puro flertar,  
paraíso perdido,
meros toque de Eros, um sarro, um tesão
- Oooh! oooh! ... bad bed bed times 
os teus peitos no jeito
e eu pego e me deleito,
na flor do meu umbigo.
- Oooh! oooh!... E ainda ponho a camisa
que avisa precisa
- I can't get no satisfaction
- Oooh! oooh! ... bad bed bed times!
onde os puros saberes
onde a fúria de seres humanos
contra a ira dos deuses
que cena obscena pedir, pedir
Por favor nada de amor
- I can’t get no satisfaction

BALADA DE MADAME FRIGIDAIRE
Ando pós-modernamente apaixonado pela nova geladeira.
Primeira escrava branca que comprei, veio e fez a revolução.
Esse eterno feminino do conforto industrial injetou-se em minha veia, dei bandeira!
e ao por fé nessa deusa gorda da tecnologia gelei de pura emoção!

Ora! desde muito adolescente me arrepio ante empregada debutante.
Uma elétrica doméstica então... Que sex-appeal! Dá-me o frio na barriga!
Essa deusa da fertilidade, ready made a la Duchamp, já passou de minha amante
Virou super-star, a mulher ideal, mais que mãe, mais que a outra... Puta amiga!

Mister Andy, o papa pop, e outro amigo meu xarope se cansaram de dizer:
Pra que Deus, Dinheiro e Sexo, Ideal, Pátria, Família pra quem já tem frigidaire?
É Freud, rapaziada!  
Vir a cair na cantada dum objeto mulher.
Eu me confundo, madame! E a classe média que mame se o céu, a prazo, se der!

Que brancorno abre e fecha sensual dessa Nossa Senhora Ascéptica!
Com ela eu saio e traio a televisão, rainha minha e de vocês.
Dona Frigidaire me come... But no kids double income! Filho compromete a estética!
Como Édipo-Rei momo, como e tomo tudo dela... Deleites da frigidez!

Inventores de Madame Frigidaire, peço bis! Muito obrigado!
Afinal, na geladeira, bem ou mal, pôs-se o futuro do país.
E um futuro de terceira, posto assim na geladeira, nunca vai ficar passado.
Queira Deus que no fim da orgia, já de cabecinha fria, eu leve um doce gelado!

Mister Andy, o papa pop, e outro amigo meu xarope, se cansaram de dizer:
- Pra que Deus, Dinheiro e Sexo, Ideal, Pátria, e Família pra quem já tem frigidaire?
É Freud, rapaziada! Vir a cair na cantada dum objeto mulher...
Mas que trocadilho infame! La vraie Ballade des Dames du Temps Jadis... au contraire!

NO MAIOR JAZZ
Guerra,
Guerra sem paz!
E que se fez da terra,
Mãe dos mortais?
Certo,
A vida é demais!
Mas sem nós, feita um  
deserto,
Com quem rolarás, oh terra?

Esses senhores se sentam à mesa
Decidem por nós... Negociações...
Estúpidos e idiotas da política!
Dólares, tanques e mísseis
Meu coração tropical não agüenta
E o Cruzeiro do Sul, que não nos orienta?

Certo,
Há que ter gás
Mas no dom de viver perto
Dos animais.

Terra!
Oh! Como me atrais!
Ah! Traz para ti quem erra
No maior jazz!

RECITANDA
(Belchior, Gracco)
Graças a deus
Eu perco sempre o juízo
No lance de dez
No acaso do sucesso

O paraíso é a palavra
O país é lá
Mensagem de amor
A votação no congresso

Vem viver comigo
Vem correr perigo
Vem, meu bem, meu bem
Que outros cantores chamam “baby”

Esse jeito de deixar sempre de lado a certeza
Sem deixar o meu cigarro se apagar pela tristeza
É proibida a entrada, mas ainda quero falar:
Viver é melhor que sonhar

Vejo vir vindo no vento o cheiro da nova estação
Sinto tudo na ferida viva do meu coração
Olha, o show já começou, é bom não se atrasar
Viver é melhor que sonhar

LIRA DOS VINTE ANOS
(Belchior, Francisco Casaverde)
Os filhos de Bob Dylan, clientes da Coca-cola
Os que fugimos da escola
Voltamos todos pra casa.
Um queria mandar brasa;
Outro ser pedra que rola...
Daí o money entra em cena e arrasa
E adeus, caras bons de bola!

Mamãe! como pôde acontecer?
Ah! meu coração-lobo mau não aguenta!
...e andarmos apressados
Deu em chegar atrasados
Ao fim dos anos cinquenta!

Meu pai não aprova o que eu faço.
Tampouco eu aprovo o filho que ele fez.
Sem sangue nas veias, com nervos de aço,
Rejeito o abraço que me dá por mês.

OS PROFISSIONAIS
Onde anda o tipo afoito
Que em 1-9-6-8
Queria tomar o poder?
Hoje, rei da vaselina,
Correu de carrão pra China,
Só toma mesmo aspirina
E já não quer nem saber.

Flower power! Que conquista!
Mas eis que chegou o florista
Cobrou a conta e sumiu
Amor, coisa de amadores
Vou seguir-te aonde f(l)ores!
Vamos lá, ex-sonhadores,
À mamãe que nos pariu!

Oh! L’age d’or de ma jeunesse!
Rimbaud, “par delicatesse
J’ai perdu (também!) ma vie!”
(Se há vida neste buraco
Tropical, que enche o saco
Ao ser tão vil, tão servil!)

E então?  
Vencemos o crime?
Já ninguém mais nos oprime
Pastores, pais, lei e algoz?
Que bom voltar pra família!
Viver a vidinha à pilha!
Yuppies sabor baunilha
Era uma vez todos nós!

Dancei no pó dessa estrada...
Mas viva a rapaziada
Que berrava: “Amor e Paz!”
Perdão, que perdi o pique...
Mas se a vida é um piquenique
Basta o herói de butique
Dos chiques profissionais.

I have a dream... My dream is over!
(Guerrilla de latin lover!)
Mire-se o dólar que faz sol
Esplim, susexo e poder,
Vim de banda e podes crer:
“Muito jovem pra morrer
E velho pro rock ‘n’ roll!”

KITSCH METROPOLITANUS
Oh, comedor de hambúrguer
Oh, mascador de chiclete
Oh, beberrão de keep cooler
Vejam só que canivete!

Onde era mesmo a escola?
Meu broto passa gillette
Garotos clones mutantes
Mostrem de novo o topete

Que tal usar brilhantina?
No país da vaselina
Quem tiver cara, me piche
E eu chego feito um pivete
À glória do sanduíche

Que gente fina! gentinha...
Rainha em puxar tapete
Não posso entrar numa sala
Que eles vêm de cassetete

Kitsch metropolitanus
Essa moçada promete
Garotos clones mutantes
Com que gastar meu confete?

Que tal usar brilhantina?
No país da vaselina
Quem tiver cara, me piche
E eu chego feito um pivete
À glória do sanduíche

TAMBOR TANTÃ
Doutor em dor, bate o tambor,
Tantã de tanto dar
Quanto prazer, luz do calor!
Mamãe, quero mamar!
Graças a Zeus tem gente assim!
Comer, beber, dançar!
E que dizer pra mister fim?
- as águas vão rolar!

Segundo o primeiro terreiro, o terceiro mundo embanana,
Imbalança....oh! lalá!
Mas quando eu me chamar Raimundo vou fundo e... é fumo pra lá e pra cá

Oh! Adelita, amor civil,
Quando a guerra acabar
Explodirei, com mais de mil,
Em um trem militar
E quem vier a fim de mim
Se ligue em meu canal!
Em reggae, em rumba, em Cuba, enfim
Na América Central.

Vocês, de lá da babilônia, não sentem vergonha de sonhar um sonho tão ex?
Oh! tirem-me desta mentira, brilhantinamente sem vez!

De bom tom dá pedal!
Tudo som, tudo são tão legal!
Um grau dez pelo dom da mulher
E um bombom pro que der e vier!

ARTE FINAL
(Belchior, Gracco, José Melo)
Desculpe qualquer coisa, passe outro dia,
Agora eu estou por fora, volto logo,
Não perturbe, pra vocês eu não estou.

Sessão de nostalgia, isto é lá com minha tia,
Isto é lá com minha tia!

Alô, presente, estou chegando,
Alô futuro, já vou!
Alô, presente, estou chegando,
Alô futuro, já vou!

Ora, Ora! Até vocês que ouvi dizer,
São gente quase honesta.
Ora, ora! Até vocês os reis da festa,
Ora, essa! Não confiam mais em mim!
E me tratam como tratam mulher, preto,
Todos entramos no gueto
Quando a coisa entrou no ar.

Mas pegue leve, não empurre, seja breve,
Conheço o meu lugar!
Mas pegue leve, não empurre, seja breve,
Conheço o meu lugar!

Dancei, sei que dancei,
Dancei meu bem!
Mas vem que ainda tem!

Dancei, sei que dancei,
Dancei meu bem!
Mas vem que ainda tem!

Dancei, sei que dancei,
Dancei meu bem!
Mas vem que ainda tem!

Dancei, sei que dancei,
Dancei, meu bem!
Mas vem que ainda tem!

E então, my friends?
Bastou vender a minha alma ao diabo,
E lá vêm vocês seguindo o mau exemplo.
Entrando numas de vender a própria mãe.
Alguém se atreve a ir comigo
Além do shopping center? Hein? Hein?
Ah! Donde están los estudiantes?
Os rapazes latino-americanos?
Os aventureiros? Os anarquistas? Os artistas?
Os sem-destino? Os rebeldes experimentadores?
Os benditos? Malditos? Os renegados?  
Os sonhadores?
Esperávamos os alquimistas, e lá vem chegando os bárbaros
Os arrivistas, os consumistas, os mercadores.
Minas, homens não há mais?
Entre o Céu e a Terra não há mais nada
Do que sex, drugs and Rock‘n’Roll?
Por que o Adeus às armas?
Não perguntes por quem os sinos dobram,
Eles dobram por Ri!
Ora, senhoras!  
Ora, senhores!
Uma boa noite lustrada de neon pra vocês
E o último a sair apague a luz do aeroporto
E ainda que mal me pergunte:
“A saída será mesmo o aeroporto?”


amanhã o último disco de canções autorais de Belchior: Bahiuno!




BIS!
ZU!
DEM!
BREAKIN!
FUCKIN!
NEUEN!
POST!

Um comentário:

Marvalsc disse...

Belchior é um absurdo com as palavras, num cantar quase atropelado por ter tanto a dizer, fazer refletir e pensar sobre tudo.
Nasce um desses a cada 100 anos ou nunca mais.

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