sábado, 29 de abril de 2017

“Além disso, a serpente representa a função primária da vida, sobretudo comer. A vida consiste em comer outras criaturas. Você não pensa muito a respeito quando faz uma boa refeição, mas o que está fazendo é comer algo que há pouco estava vivo. E quando você olha para a bela natureza e vê os passarinhos saltitando daqui para ali... eles estão comendo coisas. Você vê as vacas pastando, elas estão comendo coisas. A serpente é um canal alimentar que se move, isso é tudo. Ela lhe dá aquela sensação primária de espanto, da vida em sua condição mais primitiva. Não há absolutamente o que discutir com esse animal. A vida vive de matar e comer a si mesma, rejeitando a morte e renascendo, como a lua.”
– Joseph Campbell para Bill Moyers, “A Jornada Interior”. IN: O Poder do Mito. Trad. Carlos Felipe Moisés.

quinta-feira, 27 de abril de 2017

¡poema sem título!

[!sem título!]

É difícil esquecer o gosto e o cheiro de Vossa pele?
É difícil esquecer a textura e o sabor de Vossos lábios?
O que dizer de Vossos braços ao redor de meu pescoço?
O que dizer de Vossa voz melodiosa sussurrante a meus ouvidos?
Quando novamente...
Quando enfim outra vez...
Através de contato:
Vossa pele à minha tornando-se um só cheiro e gosto?
Vossos lábios aos meus tornando-se uma só textura e sabor?
Vossos braços ao redor de meu pescoço e meus braços ao redor de Vossa cintura?
Vossa voz melodiosa sussurrante a meus ouvidos?
Mesmo que as dúvidas mais pertinentes sejam
“Quando finalmente Vós despida diante meus olhos?”
E “então as pontas de meus dedos descendo de Vossas orelhas por Vosso tórax até
(Oh!, Mãe Gaea!)
os contornos de Vossas ancas e quadris?”
Suave e lírica sois a meus olhos...
Linearmente charmosa e interessante sois de meu agrado...
Agradavelmente e pertinentemente questionadora a mim insofismavelmente fascinante...
Sois a Fogueira que, então acesa, Não-Mais-Escuridão:
A-Fogueira-enquanto-Questionamento e Escuridão-enquanto-Desconhecimento
A Vontade e o Desejo em contraposto ao Medo e a Necedade.
Permita-me tocar-Vos enquanto Divindade e Totem e (então) simplesmente Humana
– mais que Humana, Divindade e Totem Mulher –
e entrar em combustão por estar Convosco e em Vossa presença
a ponto de não sobrar(mos) tampouco pó e cinzas;
Permita-me, Vós de olhos cerrados e deitada sobre meu corpo,
colocar Vossos cabelos atrás de Vossas orelhas
e ter Vossos lábios a contato direto e imaculado e tenro aos meus
e então voltarmos adormecer
somente ao som de nosso conjunto respirar.  

:: Introdução às Ciências da Religião, Prof.ª. Drª. Daniela Cordovil Vieira dos Santos ::
:: 27 de abril de 2017 ::

quarta-feira, 19 de abril de 2017

poema - TIARAS DE CONCHAS E FLORES E FOLHAS

TIARAS DE CONCHAS E FLORES E FOLHAS

TIARAS de conchas...
tiaras de flores...
tiaras de flores...
flores coloridas, flores de diversas cores:
flores mortas, folhas mortas
flores e folhas
e conchas
conchas que trazem o mar cantar em seu idioma
como o mar canta em seu próprio idioma
o quanto Vos quero
o quanto Vos almejo
desejo, desejos, desejo de Vós, desejo de Vós toda
mesmo apesar
apesar
de: indiscutível inegável inquestionável
indiscutivelmente
inegavelmente
inquestionavelmente
todas as Mulheres me interessarem
Umas mais... Umas menos...
Algumas é “é Mulher? ok, ótimo!”
Outras “uhum, aham, ok, ‘tá (eu passo)...”
pois a Mulher e o Ser Feminino
– a meu ver  e entender –
é o inexorável ápice e projeção do Belo artístico
enquanto conceito e ideal e estético
e interpretado como Perfeição e Harmonia perpetuamente irreprodutíveis em si mesmas.
tal qual Herr Professor [1] Campbell[2] observa e aponta
quanto Vos vi da primeira vez
meu coração disse-me ser Vós...
Vós enquanto meu outro eu...
assim como o supracitado teórico pontua sobre uma luz cintilar e algo no individuo lhe dizer quem é a pessoa certa
e... aconteceu...
eu vi esta luz a priori no verde de Vossos olhos
a completar em Vossos traços e contornos
e finar em Vosso sorriso e voz.
cantareis
de mãos às minhas
podereis cantar para mim
de nariz colado ao meu
e nós dois de testas coladas
e tiaras adornadas
quando enfim e finalmente
nossos espíritos e vontades e compromissos
tornarem-se Unos
transmutarem-se
alinharem-se
convergirem-se
em
Um
Só? 

[1] Do alemão “senhor professor”. Na língua alemã, todos os substantivos começam com letra maiúscula. Ademais, enquanto „Lehrer“ é o professor de ensino básico (feminino „Lehrerin“), „Professor“ já é o professor no ensino superior (feminino „Professorin“).
[2] Joseph John Campbell, (1904-1987), estadunidense mitólogo e estudioso de religião comparada.

:: 19 de abril de 2017 ::
:: Tópicos Temáticos I, Prof. Dr. Gustavo Soldati Reis ::

domingo, 16 de abril de 2017

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE – “A BOMBA”

“A bomba 
é uma flor de pânico apavorando os floricultores 
A bomba 
é o produto quintessente de um laboratório falido 
A bomba 
é estúpida é ferotriste é cheia de rocamboles 
A bomba 
é grotesca de tão metuenda e coça a perna 
A bomba 
dorme no domingo até que os morcegos esvoacem 
A bomba 
não tem preço não tem lugar não tem domicílio 
A bomba 
amanhã promete ser melhorzinha mas esquece 
A bomba 
não está no fundo do cofre, está principalmente onde não está 
A bomba 
mente e sorri sem dente 
A bomba 
vai a todas as conferências e senta-se de todos os lados 
A bomba 
é redonda que nem mesa redonda, e quadrada 
A bomba 
tem horas que sente falta de outra para cruzar 
A bomba 
multiplica-se em ações ao portador e portadores sem ação 
A bomba 
chora nas noites de chuva, enrodilha-se nas chaminés 
A bomba 
faz week-end na Semana Santa 
A bomba 
tem 50 megatons de algidez por 85 de ignomínia 
A bomba 
industrializou as térmites convertendo-as em balísticos 
interplanetários 
A bomba 
sofre de hérnia estranguladora, de amnésia, de mononucleose, 
de verborréia 
A bomba 
não é séria, é conspicuamente tediosa 
A bomba 
envenena as crianças antes que comece a nascer 
A bomba 
continua a envenená-las no curso da vida 
A bomba 
respeita os poderes espirituais, os temporais e os tais 
A bomba 
pula de um lado para outro gritando: eu sou a bomba 
A bomba 
é um cisco no olho da vida, e não sai 
A bomba 
é uma inflamação no ventre da primavera 

A bomba 
tem a seu serviço música estereofônica e mil valetes de ouro, 
cobalto e ferro além da comparsaria 
A bomba 
tem supermercado circo biblioteca esquadrilha de mísseis, etc. 
A bomba 
não admite que ninguém acorde sem motivo grave 
A bomba 
quer é manter acordados nervosos e sãos, atletas e paralíticos 
A bomba 
mata só de pensarem que vem aí para matar 
A bomba 
dobra todas as línguas à sua turva sintaxe 
A bomba 
saboreia a morte com marshmallow 
A bomba 
arrota impostura e prosopéia política 
A bomba 
cria leopardos no quintal, eventualmente no living 
A bomba 
é podre 
A bomba 
gostaria de ter remorso para justificar-se mas isso lhe é vedado 
A bomba 
pediu ao Diabo que a batizasse e a Deus que lhe validasse o batismo 
A bomba 
declare-se balança de justiça arca de amor arcanjo de fraternidade 
A bomba 
tem um clube fechadíssimo 
A bomba 
pondera com olho neocrítico o Prêmio Nobel 
A bomba 
é russamenricanenglish mas agradam-lhe eflúvios de Paris 
A bomba 
oferece de bandeja de urânio puro, a título de bonificação, átomos 
de paz 
A bomba 
não terá trabalho com as artes visuais, concretas ou tachistas 
A bomba 
desenha sinais de trânsito ultreletrônicos para proteger 
velhos e criancinhas 
A bomba 
não admite que ninguém se dê ao luxo de morrer de câncer 
A bomba 
é câncer 
A bomba 
vai à Lua, assovia e volta 
A bomba 
reduz neutros e neutrinos, e abana-se com o leque da reação 
em cadeia 
A bomba 
está abusando da glória de ser bomba 
A bomba 
não sabe quando, onde e porque vai explodir, mas preliba 
o instante inefável 
A bomba 
fede 
A bomba 
é vigiada por sentinelas pávidas em torreões de cartolina 
A bomba 
com ser uma besta confusa dá tempo ao homem para que se salve 
A bomba 
não destruirá a vida 
O homem 
(tenho esperança) liquidará a bomba.”
– Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), “A Bomba”. IN: Lição de Coisas, 1962.

quarta-feira, 12 de abril de 2017

“(...) ela [a Hermenêutica] possui um âmbito que alcança por princípio até o ponto em que se estende efetivamente o enunciado dotado de sentido. Enunciados dotados de sentido são inicialmente todas as declarações lingüísticas. Enquanto a arte de transmitir o que é dito em uma língua estrangeira para a compreensão de outra pessoa, não é sem razão que a hermenêutica recebe o seu nome de Hermes, o tradutor da mensagem divina para os homens. Se nos lembrarmos desse esclarecimento nominal do sentido de hermenêutica, ficará inequivocamente claro que se trata aqui de um acontecimento lingüístico, da tradução de uma língua em outra, ou seja, da relação entre duas línguas. No entanto, na medida em que só podemos transpor algo de uma língua para outra se compreendermos o sentido do que foi dito e se conseguimos reconstruí-o em meio à outra língua, um tal acontecimento lingüístico pressupõe o compreender.”
– Hans-Georg Gadamer, “Estética e Hermenêutica”. Trad. Marco Antonio Casanova.

poema sem título

[!sem título!]

EU tenho um lençol azul de rede
Que uso pra me embrulhar.
Como ultimamente faz frio pra porra de manhã cedo
Quando durmo, é enrolado com ele
E quase não levanto no dia seguinte
Isso porque não tem ar-condicionado no meu quarto
Imagina se tivesse...
Se me perguntares ou perguntasses como eu queria acordar hoje:
Ah!, queria eu... e Ah!, quem me dera...
Se fosses colchão e lençol onde eu pudesse não somente
Ter o melhor dos dormires e inclusive também
o melhor acordar...
Ah!, queria eu... e Ah!, quem me dera...
Vós do lado, ao redor, acima e abaixo
O nívea-pele refletindo às paredes do quarto a pouca luz do sol que adentra pelas fretas da janela
E então Vós vos incrustando ainda mais a meu corpo
Tal qual um brasão de armas em um escudo ou cabo de gladio e/ou espada e/ou maça.
Como, Vós, ser refletor
Como, Vós, colchão e lençol
apareceste a minha vida e então 
Vós, de divinos e formosos traços e delíneos...
Vós, de doces e cândidos olhos claros
estes ora silenciosos (mudos?)
ora gritantes no momento de gozar
que nenhum dos Nove Mundos consegue mais dormir depois...
Vós, toda e Toda em Vossos infinitos e ímpares
Completude e Graciosidade e Infinitude
em Vós
perco-me alegremente sem olhar para trás
rumo aos inescrutáveis e imensuráveis 
Sentido-da-Vida e Existência-em-Si-Mesma
que são e estão Vosso Corpo e enfim neste 
Vosso Bem-Querer!
Então neste Período conhecido como “Agora”
repousado em Vós
embrulhado em Vós
tal qual um Lobo no silencioso caçar
subirei de Vossas pernas a Vossos quadris e barriga
trilharei por Vosso tórax e abdome
rastrearei por Vosso colo e Vosso braço e ombros
até finalmente situar bandeira em Vosso queixo e lábio e nariz
para ouvir-Vos sussurrar, de olhos semicerrados, meu nome

e então sermos
novamente
e mais uma vez

Um. 

:: 07 e 11 de abril de 2017 ::
“Parece pertencer muito mais à experiência da arte o fato de a obra de arte possuir sempre o seu próprio presente, de ela só reter em si de maneira muito condicionada a sua origem histórica e de ser em particular expressão de uma verdade que não coincide absolutamente com aquilo o seu autor intelectual propriamente imaginou aí. Quer denominemos agora esse fato a criação inconsciente do gênio ou consideremos a partir do observador a inesgotabilidade conceitual de cada enunciado artístico – em todos os casos, a consciência estética pode se reportar ao fato da obra de arte comunicar a si mesma.”
– Hans-Georg Gadamer, “Estética e Hermenêutica”. Trad. Marco Antonio Casanova.

quinta-feira, 6 de abril de 2017

poema para Camila Fernanda Ferreira Costa

[!sem título!]

AGORA é “amigos, amigos, cada um pro seu lado”...
Agora é “amigos, amigos, eu aqui e tu ai”
É sempre uma lástima...
É sempre uma tristeza...
É sempre frustrante...
Mas a vida tem disso, infelizmente a vida tem disso...
Nos demos as mãos – para a chuva ser menos fria.
Nos demos as mãos: para que as enchentes não cobrissem nossas cabeças.
Nos demos as mãos, para que não afundássemos em lama.

Agora soltamos as mãos:
não estamos à deriva mas tudo se esvai... 
se esvaindo e se tornando história...
esvaindo e se tornando lembrança...
Tudo se esvai e se desfaz: em Lembrança
Tudo se esvai e se desfaz: em Memória
Tudo se esvai e se desfaz: em Poesia.

tudo se esvai e se desfaz e se vai

a vida sopra sempre pra frente e nos soprou para longe um do outro.
que todo o Amor e toda a Boa-Vontade e Bem-Querer deste mundo
sempre estejam contigo.
um dia eu não mais lamentarei nos termos nos soprado para longe
(muito a dizer, sempre muito a dizer)

um dia não mais lamentaremos termos soltado as mãos

hoje é este dia?

hoje só faz frio e não quero levantar da cama...
pensar nisso deixa o dia bem mais frio

bem mais frio. 

:: 04 de abril de 2017 ::

quarta-feira, 5 de abril de 2017

poema sem título de 05 de abril de 2017

[!sem título!]

NÃO me leve a mal, deixa eu te levar pra minha cama...!
Não me tire dúvidas, deixa eu tirar as suas roupas!
Hoje amanheceu nublado, ainda está nublado –
Não consegui mais dormir, não ‘tô acostumado a frio assim.
Eu quero um aquecedor pessoal do tamanho do seu corpo!
Com penas como as suas
E braços como os seus.
Duvido sentir frio com sua buceta e peitos ao alcance de minhas mãos e minha boca.
Como sentir frio com sua buceta e peitos ao alcance das mãos e da boca
ainda mais da Mulher que se deseja
como eu te desejo?
Mesmo que não seja reciproco, ah, deixa, eu te entendo:
Masturbação sempre esteve aí e vai perdurar até muito depois de nós.
O tempo vai passar, nós vamos passar...
Eu quero me aquecer abraçado no seu corpo...
Eu quero me aquecer passando a língua em todo o seu corpo!
Não quero café na cama, quero ser acordado com um boquete
e logo depois
“Vamos dar uma rapidinha antes de eu sair pra trabalhar!”.
Pode soar machista, rude, agressivo e mesmo sexista
Mas almejo sentires minha língua pelo lado de dentro da garganta
tendo como portal sua vagina.
Não faça essa cara de moça recatada lendo sem graça
Tu não me enganas não:
Queres e gostas mesmo de estar avermelhada
Tendo uma morte em vida:
A Melhor Morte: desfazer-se em Suor de Tanto Gozar!
Não me dê soluções, me dê a oportunidade de te comer como tu mereces e precisas sê-lo.
Não me traga esperança, me traga seu corpo com roupas fáceis de tirar.
Uma das certezas insofismáveis do universo
É que não sou um desses machos tristes que pagam de fodões
Mas não passam de vermes arrotando valentia que se cagam todos
Ao encontrar Mulheres maiores e melhores que eles
Como inquestionavelmente és perante a mim.
Então este sou eu: pronto e disposto a ser sacrificado em Seu Nome, Honra, Glória e Devoção!
Não me mostre estimativas e expectativas, me mostre o corpo irrequietamente escondido sobre estes tão finos trajes.
Não me apresente novas perspectivas e autores, me apresente como realmente és, sem batom e maquiagem e quinquilharias e penduricalhos.
Venha me aquecer, enfim deixar eu te conhecer...
Unamo-nos e sejamos tanto um micro-ondas quanto uma pira cerimonial
e nunca mais sentir frio. 

:: 04 de abril de 2017 ::

terça-feira, 4 de abril de 2017

“Não se troca de moradia facilmente, pois não é fácil abandonar nosso próprio mundo. A casa não é um objeto, "uma máquina dentro da qual se vive"; é o universo que o homem constrói para si mesmo, imitando a criação paradigmática dos deuses, a cosmogonia. O ato de construir e o de instalar numa nova moradia são, de certa forma equivalentes a um novo começo, uma nova vida. E cada começo repete o começo primordial, quando o universo viu a luz pela primeira vez. Mesmo as sociedades modernas, com o seu alto grau de dessacralização, as festividades e o júbilo que acompanham o ato de estabelecer-se numa casa nova, ainda preservam a lembrança da exuberância festiva que, há muito tempo, marcava o incipit vita nova.”
- Mircea Eliade (1907-1988), “A casa como centro do mundo”. IN: Ocultismo, bruxaria e correntes culturais - ensios entre religiões comparadas. Trad. Noeme da Piedade Lima Kingl. Belo Horizonte: Interlivros, 1979.