terça-feira, 16 de julho de 2019

TEU CORPO, SOBRE TEU CORPO – poema

TEU CORPO, SOBRE TEU CORPO

as sombras sobre Teu corpo
despido em uma cama sem lençol
em um quarto quase escuro
e o céu branco prestes a chover
formam outro corpo.
as palavras que uso para escrever
sobre Teu corpo
em versos de handouts não-utilizados
ou de fotocópias que não funcionaram
ou de impressões que não saíram
como deveriam,
a lápis ou a esferográficas
formam um corpo
inteiramente novo.
quando Tu Lês o que escrevo
sobre Teu corpo
e me vês como eu Te vejo
também se faz
um outro corpo.
mas quando Teu corpo
o original,
ao meu?
não necessário todo
só as mãos às minhas
e testas coladas
sem a necessidade de
beijos.

:: 15 de julho de 2019 ::

segunda-feira, 15 de julho de 2019

OS QUE AMARAM ANTES - poema


OS QUE AMARAM ANTES

:: Paulo Franchetti ::

Os que amaram antes
e os que ainda vão amar;
os que andaram nas ruas
e os que cruzaram os campos;
aqueles que tiveram a sorte
e aqueles que apenas desejaram;
os que ouviram as palavras
e os que não as disseram;
os que já morreram
e os que estão por nascer:
com todos me irmano
neste momento, repleto
e vazio de mim mesmo.
A todos estendo o pensamento,
e em segredo convoco:
eu, que não sou nada, apenas
aquele que o amor agora habita
e agita e faz falar.

IN: FRANCHETTI, Paulo. Deste Lugar. Cotia, SP: Ateliê Editorial, 2012.   

domingo, 14 de julho de 2019

DOC FRANKENSTEIN – análise da HQ

ouvindo randomicamente todos os álbuns da Cátia de França [ver capas abaixo na ordem de lançamento]
20 Palavras ao redor do Sol (1979)
Estilhaços (1980)
Feliz Demais (1986)
Avatar (1996)
Hóspede da Natureza (2016)

pois sim. tem uma HQ altamente doente mental que eu ‘tava querendo ler uns tempos ai mas os links sempre ‘tavam quebrados e eu ‘tava cuma preguiça da porra de ler no original em inglês. ai que achei o scan esses dias, baixei logo e li na mesma noite quando deveria estar escrevendo a porra da dissertação pra ver qual era o papo dessa porra.
são seis edições mas vou logo dar o papo nessa porra que era pra ser mais mas ficou na última mesmo. tem que ter uma paciência da porra pra chegar ao último volume porque é tudo muito jogado e muita coisa não parece fazer muito sentido se tu não tiveres uma grande experiência com leitura de gente como Garth Ennis, Grant Morrison, esse bando de filha da puta que junta tudo na mesma panela, tu te perdes e acaba deixando a leitura.
QUAL
É
O
PAPO
DA
HISTÓRIA?!?
o que tu tens que esperar de uma história em seis partes, escrita pelos até então Irmãos Wachowski (atualmente Lilly [nascida Andrew Paul “Andy”] e Lana [nascida Laurence “Larry”]), a partir de um conceito criado por Geof Darrow, Steve Skroce (e desenhada por este último), com arte-final de Jason Keith publicada por uma tal de Burlyman entre 2004 e 2007?!?
Irmãos Wachowski ANTES
AGORA Irmãs Wachowski

isso mesmo, isso mesmo mesmo, uma história altamente aleijada mental que deixaria o Antônio Francisco Lisboa, a.k.a. Aleijadinho (1730/1738 os historiadores não entram em consenso-1814), muitíssimo orgulhoso de tão aleijada mental que é.
Mary Wollstonecraft Shelley, sua linda! EU TE VENERO!
segue o final da obra canônica de Mary Wollstonecraft Shelley (1797-1851), Frankenstein ou o Prometeus Moderno:
“[...] interrompeu a criatura. — 
Todavia essa deve ser a impressão que lhe causaram as minhas ações. Não pense que eu busco um sentimento amigo. Nem pense que eu espere encontrar simpatia. No início, o que eu queria era participar dos sentimentos de amor, de virtude, de felicidade e de afeição, de modo que todo o meu ser estava inundado
mulam qualquer boa impressão a meu respeito. Mas não procuro quem compartilhe de meu infortúnio. Sei que jamais poderei encontrar piedade. Quando pela primeira vez a busquei, era dos meus sentimentos de solidariedade, dos meus anseios de afeto e compreensão, da minha inclinação para o bem que eu esperava que alguém compartilhasse. Mas agora que a virtude se tornou para mim uma sombra, e a felicidade e o afeto se converteram no mais penoso e abominável desespero, onde buscar e de quem esperar simpatia? Contento-me em sofrer sozinho. Sei que, quando morrer, a abominação e o opróbrio pesarão sobre minha memória. Outrora alimentei esperanças de encontrar seres que, perdoando minha forma exterior, me amariam pelas qualidades morais que eu pudesse contrapor a ela. Acalentei-me de elevados pensamentos de honra e devoção. Mas agora o crime me degradou à condição do animal mais vil. Quando relembro a cadeia das minhas iniqüidades, não posso crer que sou a mesma criatura cujos pensamentos eram antes repletos de sublimidade e de visões do bem. Mas é justamente assim. O anjo decaído torna-se demônio. Entretanto, mesmo aquele inimigo de Deus e do homem tinha amigos e seguidores. Eu sou sozinho.
‘Você, que chama a Frankenstein seu amigo’, prosseguiu o monstro, ‘parece ter conhecimento de meus crimes e infortúnios. Mas às particularidades que lhe forneceu sobre eles não lhe seria possível somar as horas de desalento que padeci. Da mesma forma, jamais encontrei da parte de quem quer que fosse um mínimo de complacência. É justo isso? Devo ser tido como o único criminoso quando todo o gênero humano também errou contra mim? Por que você não odeia Félix, que expulsou seu amigo de sua porta? Por que não condena o camponês que tentou destruir o salvador de sua filha?
‘Diante de tanta incompreensão e injustiça, tangido pela revolta, assassinei criaturas inocentes, que nem mesmo sabiam da minha existência. Lancei meu criador, digno, em todos os sentidos, do amor e admiração dos homens, aos meandros da mais completa desgraça. Aqui está ele, na brancura e frieza da morte. Por mais execrado que eu seja, nada iguala o desprezo que sinto por mim mesmo.
‘Mas não receie que eu ainda venha a ser instrumento de futuros males. Minha obra está quase terminada, mas estará definitivamente consumada com o meu próprio extermínio. Não demorarei a executar esse sacrifício ou, antes, esse resgate. Deixarei seu navio na jangada que me trouxe até aqui e buscarei o ponto mais extremo do globo. Erguerei uma pira e consumirei até as cinzas este arcabouço miserável, de modo a que não possa restar de seus despojos o mínimo indício da minha imagem que possa orientar algum outro desavisado na tentativa de percorrer a senda maldita do meu criador, procurando refazer a sua obra,
‘Adeus! Deixo-o, e com você o último ser da espécie humana a quem estes olhos jamais contemplarão. Adeus, Frankenstein! Tu buscaste minha extinção para que eu não pudesse repetir minhas atrocidades. Morto tu, cumprirei agora o teu desígnio. Acenderei minha pira funerária em triunfo e exultarei na agonia das chamas. Minhas cinzas serão varridas pelos ventos e lançadas no mar. Meu espírito partirá para a paz ou o degredo da eternidade. Adeus!’ 

Assim falando ele pulou pela janela do camarote para o bloco de gelo que estava perto do navio. Pouco depois era impelido pelas ondas e se perdia nas trevas e na distância.”
[tradução de Miécio Araújo Jorge Honkis, versão do Círculo do Livro] 

o começo de Doc Frankenstein é onde a obra de Frau Wollstonecraft termina

AH SIM!
quando terminar de upar as letras dos álbuns do Belchior (QUANDO!), vou upar as da cantora e compositora e musicista e arranjadora e professora pessoense (i.e., natural de João Pessoa, capital da Paraíba) Catarina Maria de França Carneiro, a.k.a. CÁTIA DE FRANÇA, que manda muitíssimo bem em letras e músicas, e versões musicadas de textos de graúdos como José Lins do Rego, Manoel de Barros, João Cabral de Melo Neto e o container sem guindaste supremo da literatura brasileira imediatamente depois do Machado de Assis Guimarães Rosa
cantoras da MPB que fizeram seus nomes sem escrever uma linha do que cantavam? não me façam rir, seus desgraças procurem ouvir os álbuns da Cátia de França, porque A MULHER É FODA!!!

quarta-feira, 10 de julho de 2019

BELCHIOR - TODOS OS SENTIDOS - 1978

BELCHIOR
TODOS OS SENTIDOS
1978
– todas as letras e músicas de Belchior, exceto onde indicado
DIVINA COMÉDIA HUMANA
Estava mais angustiado que um goleiro na hora do gol
Quando você entrou em mim como um Sol num quintal
Aí um analista amigo meu disse que desse jeito
Não vou ser feliz direito
Porque o amor é uma coisa mais profunda que um encontro casual
Aí um analista amigo meu disse que desse jeito
Não vou viver satisfeito
Porque o amor é uma coisa mais profunda que uma transa sensual

Deixando a profundidade de lado
Eu quero é ficar colado à pele dela noite e dia
Fazendo tudo e de novo dizendo sim à paixão, morando na filosofia
Deixando a profundidade de lado
Eu quero é ficar colado à pele dela noite e dia
Fazendo tudo e de novo dizendo sim à paixão, morando na filosofia

Quero gozar no seu céu, pode ser no seu inferno
Viver a divina comédia humana onde nada é eterno
Quero gozar no seu céu, pode ser no seu inferno
Viver a divina comédia humana onde nada é eterno

Ora direis, ouvir estrelas, certo perdeste o senso
E eu vos direi no entanto:
Enquanto houver espaço, corpo, tempo e algum modo de dizer não eu canto
Ora direis, ouvir estrelas, certo perdeste o senso
E eu vos direi no entanto:
Enquanto houver espaço, corpo, tempo e algum modo de dizer não eu canto
Enquanto houver espaço, corpo, tempo e algum modo de dizer não eu canto
Enquanto houver espaço, corpo, tempo e algum modo de dizer não eu canto
Enquanto houver espaço, corpo, tempo e algum modo de dizer não eu canto

SENSUAL
(Belchior, Tuca)
Quando eu cantar
quero ficar molhado de suor.
E por favor não vá pensar
que é só a luz do refletor.

Será minha alma que sua
sob um sol negro de dor;
outro corpo, a pele nua,
carne, músculo e suor.

Como um cão que uiva pra lua
contra seu dono e feitor;
uma fera-animal ferido
no dia do caçador;
humaníssimo gemido
raro e comum como o amor.

Quando eu cantar
quero lhe deixar
molhada de amor
E por favor não vá pensar
que é só a noite ou o calor.

Quero ver você ser
inteiramente tocada
pelo licor da saliva,
a língua, o beijo, a palavra.

Minha voz quer ser um dedo
na tua chaga sagrada.
Uma frase feita de espinho,
espora em teus membros cansados:
sensual como o espírito
ou como o verbo encarnado.

BRINCANDO COM A VIDA
Eu escolhi a vida como minha namorada,
com quem vou brincar de amor a noite inteira.

Eu estou sempre em perigo
e a minha vida sempre está por um triz.
Se vejo correr uma estrela no céu, eu digo:
- Deus te guie, zelação. Amanhã vou ser feliz.
É caminhando que se faz o caminho.
(Quem dera a juventude a vida inteira.)
Eu escolhi a vida como minha namorada,
com quem vou brincar de amor a noite inteira.
Vida, eu quero me queimar no teu fogo sincero.
(Espero que a aurora chegue logo.)
Vida, eu não aceito, não! A tua paz,
porque meu coração é delinquente juvenil
suicida sensível demais.
Vida, minha adolescente companheira,
a vertigem, o abismo, me atrai:
é esta a minha brincadeira.

Eu estou sempre em perigo:
o dia D, a hora H, a corda bamba,
o bang, o clic do gatilho...
Vida, agora eu te conheço.
(Calma! A tudo eu prefiro a minha alma.
E quero que isto seja o meu brilho.)
Vida agora eu te conheço.
(Calma! A tudo eu prefiro a minha alma.
E quero que isto seja o meu brilho
e o meu preço.)

CORPOS TERRESTRES
Osculetur me oscule oris suis
Ideo adolescentulae dilexerunt te
Nigra sum sent formosa
(but tomorrow is another day anyway)
Nolite me considerare quod fusca sim
Quia decoloravit me sol
it's alright, ma! (i'm only bleeding)
Here comes the sun
Indica mihi quem, dirigit anima mea
Ube pascas, ube cubes in meridie
(come with me and be my love)
Ego dilecto meo, et dilectos meus mihi
(i've got you under my skin... oh! really?)

Ego flos campi
Et lilium convallium

Veni, dilecte mi egrediamur in agrum
Commoremur in villis
Ibi dabo tibi ubera mea

Quam pulchra es, amica mea, quam pulchra es!
Umbilicus tuus crater tornalitis
Numquam indigens poculis
Venter tuus sicut acervus tritici
Vallatus liliis
Duo ubera tua sicut duo hinnuli
Gemelli capreae
(absque occultis tuis!)
Apori mihi, 'soror mea, amica mea
Columba mea, immaculata mea

Dilectus meus misit manum sua per foramen
Et venter meus intremuit ad tactum eius

Qui faciemus sorori nostrae
In die quando alloquenda est?
Sub arbore malo suscitavi te
Ibi corrupta est mater tua
Ibi violata est genitrix tua

Pone me ut signaculum super cor tuum
Ut signaculum super brachium tuum
Que fortis est ut mors dilectio

HUMANO HUM
(Lavrar a palavra a pá
como quem prepara um pão.)

Quando o mar virar sertão
nossa palavra será
tão humana como o pão.

E o canto que soar um palavrão
se mostrará como é:
anjo de espada na mão.

COMO SE FOSSE PECADO
É claro que eu quero o clarão da lua
É claro que eu quero o branco no preto
Preciso, precisamos da verdade nua e crua
Mas não vou remendar nosso soneto
(Batuco um canto concreto pra balançar o coreto)
Por enquanto o nosso canto é entre quatro paredes
Como se fosse pecado, como se fosse mortal

(Segredo humano pro fundo das redes
Tecendo a hora em que a aurora for geral)
Por enquanto estou crucificado e varado
Pela lança que não cansa de ferir
Mas neste bar no Oeste Nordeste Sul, falo cifrado:
"Hello, bandidos! (Bang!) É hora de fugir!"

Mas quando o canto for tão natural como o ato de amar
Como andar, respirar, dar a vez à voz dos sentidos
Virgem Maria, dama do meu cabaré
Quero gozar toda a noite sobre tus pechos dormidos
Romã, romã quem dançar, quem deixar a mocidade louca
Mas daquela loucura que aventura, a estrada
E a estrela do amanhã e aquela felicidade - arma quente
(Quem haverá que agüente tanta nudez sem perder a saúde?)
A palavra era um dom, era bom, era conosco... Era uma vez
Felicidade - arma quente (Com coisa quente é que eu brinco:
Take it easy, my brother Charles, Anjo 45)...
Tá qualquer coisa meu irmão
Mas use o berro e o coração
Que a vida vem no fim do mês.

BEL-PRAZER
Libertar a carne e o espírito
Coração, cabeça e estômago;
Libertar a carne e o espírito
Coração, cabeça e estômago;

O verbo, o ventre, o pé, o sexo, o cérebro:
Tudo o que pode ser e ainda não é.
O verbo, o ventre, o pé, o sexo, o cérebro:
Tudo o que pode ser e ainda não é.

Teu corpo é meu coro, oh! Irene.
E eu quero é ir, irene preta, ao bom humor.
Só o homem feito, o homem forte,
Não tem peito pra chorar,

En la vereda tropical
Hay cana e canela e crecen las palmas
Y yo soy un hombre sincero
Quero um ombro pra abraçar.

En la vereda tropical
Hay cana e canela e crecen las palmas
Y yo soy un hombre sincero
Quero um ombro pra abraçar.

Achar ou inventar um lugar,
Tão humano como o corpo,
Onde pensar e gozar,
Seja livre e tão legal:

Como razões de estado
Ou como fazer justiça;
Como palavras num muro
Ou escrever num jornal;

Entrar ou sair da escola,
Mulher-homem, homem-mulher;
Como luar no sertão,
Como lua artificial,

Como roupas comuns,
Como bandeiras agitadas.
Festival estranho: festa,
Feriado nacional

Como roupas comuns,
Como bandeiras agitadas.
Festival estranho: festa,
Feriado nacional

NA HORA DO ALMOÇO
No centro da sala
Diante da mesa
No fundo do prato
comida e tristeza

A gente se olha
se toca e se cala
E se desentende
No instante em que fala

Cada um guarda mais o seu segredo
A sua mão fechada a sua boca aberta
Seu peito deserto a sua mão parada
Lacrada selada molhada de medo

Pai na cabeceira é hora do almoço
Minha mão me chama é hora do almoço
Minha irmã mais nova negra cabeleira
Minha vó reclama é hora do almoço

Que eu ainda sou bem moço prá tanta tristeza
Deixemos de coisa cuidemos da vida
Se não chega a morte ou coisa parecida
E nos arrasta moço sem ter visto a vida
Ou coisa parecida ou coisa aparecida ou coisa aparecida

TER OU NÃO TER
Quando eu vim para a cidade, eu ganhava a minha vida,
ave-pássaro cantando na noite do cabaré.
E era mais pobre do que eu a mulher com quem dividia,
dia e noite, sol e cama, cobertor, quarto e café.

O Nordeste é muito longe. Eh! saudade. A cidade é sempre violenta.
Pra quem não tem pra onde ir, a noite nunca tem fim.
O meu canto tinha um dono e esse dono do meu canto
pra me explorar, me queria sempre bêbado de gim.

O patrão do meu trabalho era um tipo de mãos apressadas
em roubar, derramar sangue de quem é fraco, inocente.
Tirava o pão das mulheres - suor de abraços noturnos,
confiante que o dinheiro vence infalivelmente.

Ele ganhava as meninas com seu jeito de bonito:
a roupa novinha em folha, cravo vermelho na mão,
charuto aceso na boca e bolsa cheia de promessas
de que um dia entregaria a qualquer uma o coração.

Mas noite é vida e vida é jogo e jogo é sorte e sorte é vária;
coisa muito complicada: o amigo tem ou não tem.
Quem não tem sucesso ou grana tem que ter sorte bastante,
para escapar salvo e são das balas de quem lhe quer bem.

Por isso eu fui Navalha, falei com Papel de Seda,
malandros amigos meus, que tinham vindo há mais tempo
Deles aprendi a arte de conviver com o perigo,
de respeitar sem temer qualquer espécie de gente.

Contei tudo. Eles iriam ver meu show na meia noite...
Falava a palavra AMOR, a letra da minha canção.
... O tipo, sentado à mesa, rugia e amassava o cravo.
Sangue: um golpe na garganta e um tiro no coração.

Eu não quero falar nada; eu quero é completar meu canto
pois sei que o show continua, que continua o viver.
Mas é bom tomar cuidado com quem entende o riscado:
To be or not to be quer dizer: ter ou não ter.

ATÉ AMANHÃ
Até amanhã,
se o homem quiser – mesmo se chover
Volto pra viver mulher.

Até à manhã,
se houver amanhã. – se eu vir a manhã
mando alguém dizer como é.

ACORDA AMOR
o sono acabou Maria Bonita
vem fazer o café.
O homem comum inda nem levantou,
mas a polícia já está de pé.

quarta-feira, 3 de julho de 2019

BELCHIOR - CORAÇÃO SELVAGEM - 1977 [era pra eu ter postado ontem mas dormi e acabei não postando]

ouvindo agora: Menstruação Anárquika, Menstruação Anárquika, de 2004.

o título do post é autoexplicativo

BELCHIOR
CORAÇÃO SELVAGEM
1977
CORAÇÃO SELVAGEM
Meu bem, guarde uma frase pra mim dentro da sua canção
Esconda um beijo pra mim sob as dobras do blusão
Eu quero um gole de cerveja no seu copo
No seu colo e nesse bar

Meu bem, o meu lugar é onde você quer que ele seja
Não quero o que a cabeça pensa eu quero o que a alma deseja
Arco-íris, anjo rebelde, eu quero o corpo
Tenho pressa de viver

Mas quando você me amar, me abrace e me beije bem devagar
Que é para eu ter tempo, tempo de me apaixonar
Tempo para ouvir o rádio no carro
Tempo para a turma do outro bairro, ver e saber que eu te amo

Meu bem, o mundo inteiro está naquela estrada ali em frente
Tome um refrigerante, coma um cachorro-quente
Sim, já é outra viagem e o meu coração selvagem
Tem essa pressa de viver

Meu bem, mas quando a vida nos violentar
Pediremos ao bom Deus que nos ajude
Falaremos para a vida: "Vida, pisa devagar
Meu coração cuidado é frágil;
Meu coração é como vidro, como um beijo de novela"

Meu bem, talvez você possa compreender a minha solidão
O meu som, e a minha fúria e essa pressa de viver
E esse jeito de deixar sempre de lado a certeza
E arriscar tudo de novo com paixão
Andar caminho errado pela simples alegria de ser

Meu bem, vem viver comigo, vem correr perigo
Vem morrer comigo, meu bem, meu bem, meu bem
Talvez eu morra jovem:
Nalguma curva no caminho, algum punhal de amor traído
Completará o meu destino, meu bem... Que outros cantores chamam baby.

PARALELAS
Dentro do carro, sobre o trevo a cem por hora, oh! Meu amor
Só tens agora os carinhos do motor
E no escritório em que eu trabalho e fico rico
Quanto mais eu multiplico diminui o meu amor

Em cada luz de mercúrio vejo a luz do seu olhar
Passas praças, viadutos, nem te lembras de voltar
De voltar, de voltar

No Corcovado,
Quem abre os braços sou eu!
Copacabana, esta semana, o mar sou eu!
E as borboletas do que fui pousam demais,
Por entre as flores do asfalto, em que tu vais

E as paralelas dos pneus n'água das ruas
São duas estradas nuas em que foges do que é teu
No apartamento, oitavo andar, abro a vidraça e grito
Grito quando o carro passa:
teu infinito sou eu, sou eu, sou eu, sou eu

No corcovado quem abre os braços sou eu
Copacabana esta semana o mar sou eu
Como é perversa a juventude do meu coração
Que só entende o que é cruel e o que é paixão

TODO SUJO DE BATOM
Eu estou muito cansado
Do peso da minha cabeça
Desses dez anos passados (presentes)
Vividos entre o sonho e o som
Eu estou muito cansado
De não poder falar palavra
Sobre essas coisas sem jeito
Que eu trago em meu peito
E que eu acho tão bom

Quero uma balada nova
Falando de brotos, de coisas assim
De money, de banho de lua, de ti e de mim
Um cara tão sentimental

Quero uma balada nova
Falando de brotos, de coisas assim
De money, de banho de lua, de ti e de mim
Um cara tão sentimental

Quero a sessão de cinema das cinco
Pra beijar a menina e levar a saudade
Na camisa toda suja de batom

Quero a sessão de cinema das cinco
Pra beijar a menina e levar a saudade
Na camisa toda suja de batom

CASO COMUM DE TRÂNSITO
Faz tempo que ninguém canta uma canção falando fácil, claro-fácil, claramente
Das coisas que acontecem todo dia, em nosso tempo e lugar.
Você fica perdendo o sono, pretendendo ser o dono das palavras, ser a voz do que é novo; e a vida, sempre nova, acontecendo de surpresa, caindo como pedra sobre o povo.

À tarde, quando eu volto do trabalho, mestre Joaquim pergunta assim pra mim:
- Como vão as coisas? Como vão as coisas? Como vão as coisas, menino?
-Como vão as coisas? Como vão as coisas? Como vão as coisas, menino?

E eu respondo assim:
- Minha namorada voltou para o norte, ficou quase louca e arranjou um emprego muito bom. Meu melhor amigo foi atropelado, voltando para casa.
Caso comum de trânsito, caso comum de trânsito, caso comum de trânsito.
Caso, caso comum de trânsito, caso comum de trânsito, caso comum de trânsito.

Pela geografia, aprendi que há, no mundo, um lugar, onde um jovem como eu pode amar e ser feliz. Procurei passagem: avião, navio... Não havia linha pra aquele país.
Não havia linha. não havia linha pra aquele país.

Deite ao meu lado. Dá-me o teu beijo. Toda a noite o meu corpo será teu. Eles vêm buscar-me na manhã aberta: a prova mais certa que não amanheceu.
Não amanheceu, não amanheceu menina. Não amanheceu,não amanheceu ainda.

PEQUENO MAPA DO TEMPO
Eu tenho medo e medo está por fora
O medo anda por dentro do teu coração
Eu tenho medo de que chegue a hora
Em que eu precise entrar no avião

Eu tenho medo de abrir a porta
Que dá pro sertão da minha solidão
Apertar o botão: cidade morta
Placa torta indicando a contramão
Faca de ponta e meu punhal que corta
E o fantasma escondido no porão

Medo, medo. medo, medo, medo, medo

Eu tenho medo que Belo Horizonte
Eu tenho medo que Minas Gerais
Eu tenho medo que Natal, Vitória
Eu tenho medo Goiânia, Goiás

Eu tenho medo Salvador, Bahia
Eu tenho medo Belém, Belém do Pará
Eu tenho medo pai, filho, Espírito Santo, São Paulo
Eu tenho medo eu tenho C eu digo A

Eu tenho medo um Rio, um Porto Alegre, um Recife
Eu tenho medo Paraíba, medo Paranapá
Eu tenho medo Estrela do Norte, paixão, morte é certeza
Medo Fortaleza, medo Ceará

Medo, medo. medo, medo, medo, medo

Eu tenho medo e já aconteceu
Eu tenho medo e inda está por vir
Morre o meu medo e isto não é segredo

Eu mando buscar outro lá no Piauí
Medo, o meu boi morreu, o que será de mim?
Manda buscar outro, maninha, no Piauí

GALOS, NOITES E QUINTAIS
Quando eu não tinha o olhar lacrimoso
Que hoje eu trago e tenho
Quando adoçava o meu pranto e o meu sono
No bagaço de cana de engenho
Quando eu ganhava esse mundo de meu Deus
Fazendo eu mesmo o meu caminho

Por entre as fileiras do milho verde que ondeiam

Com saudades do verde marinho

Eu era alegre como um rio

Um bicho, um bando de pardais

Como um galo, quando havia
Quando havia galos, noites e quintais
Mas veio o tempo negro e a força fez
Comigo o mal que a força sempre faz
Não sou feliz, mas não sou mudo
Hoje eu canto muito mais

CLAMOR NO DESERTO
É! meus amigos,
Um novo momento precisa chegar.
Eu sei que é difícil começar tudo de novo,
Mas eu quero tentar.

Minha garota não me compreende
E diz que, desse jeito, eu apresso o meu fim.
Fala que o pai dela é lido e corrido
E sabe que a América toda é assim.

Quem me conhece me pede que seja mais alegre...
Mas é que nada acontece que alegre meu coração.
Dá no jornal, todo dia, o que seria o meu canto,
Mas o negócio é cantar o luar do sertão.

É! meus amigos,
Um novo momento precisa chegar.
Eu sei que é difícil começar tudo de novo,
Mas eu quero tentar.

Ano passado, apesar da dor e do silêncio,
Eu cantei como se fosse morrer de alegria.
Hoje, eu lhe falo em futuro e você tira o revólver,
Puxa o talão de cheque e me dá um bom dia.

Sei que não é possivel dizer todas as coisas,
Nesse feliz ano novo que a gente ganhou.
Mas falta só algum tempo para 1-9-8-4.
Agora estou em paz: o que eu temia chegou!

POPULUS
Populus meu cão
o escravo indiferente que trabalha
e por presente tem migalhas
sobre o chão

populus populus populus meu cão
populus meu cão populus meu cão

Primeiro foi seu pai segundo seu irmão
terceiro agora é ele agora é ele agora é ele
de geração em geração em geração

No congresso do medo internacional
houví o segredo do enredo final
sobre populus meu cão
sobre populus meu cão

Documento oficial
em testamento especial
sobre a morte sem razão
de populus meu cão

populus de populus de populus

populus populus populus meu cão
populus populus populus meu cão

Delírios sanguíneos
espumas nos teus lábios
tudo em vão

Tenho medo de populus meu cão
roto no esgoto do porão
De populus de populus de populus meu cão

seu olhar de quase gente
as fileiras dos seus dentes
trago o rosto marcado
eles me conhecerão me conhecerão me conhecerão me conhecerão

populus populus populus meu cão
populus populus populus meu cão

populus populus populus meu cão

sos é só sos é só

CARISMA
Deu a vida pelos seus
isto é mais forte que a morte
mais importante que Deus
que Deus e o Mundo
que Deus e todo mundo

Sua voz, morta, ainda canta
ainda espanta o mau agouro
nessa terra, onde o silêncio
literalmente, é de ouro

Eu nasci lá, numa terra
onde o céu é o próprio chão

segunda-feira, 1 de julho de 2019

CULTURA-[-S] – poema que eu jurava que tinha perdido e achei hoje de madrugada

CULTURA-[-S]

cultura
são
culturas
dentro de
culturas
e
a partir de
culturas
gerando
outras
culturas
que junto às
culturas
anteriores
geram outras
culturas
que somadas às
anteriores
acabam por
formar
novamente
uma só
cultura
e assim
indefinidamente
a nível mundial
em toda
e qualquer
cultura

:: 20 de junho de 2019 ::

domingo, 30 de junho de 2019

ALIENS VS. ZOMBIES – análise da HQ

ouvindo: Angelic Upstarts, faixas aleatórias/randômicas de Teenage Warning, de 1979; Two Million Voices, de 1981; e We Gotta Get Out Of This Place, de 1982.

a primeira vez que li essa HQ foi há uns anos atrás, 2017, 2018, por ai. e... eu não peguei pra ler por causa da moda zumbi, é porque eu amo essa merda alien. #TeamAlien HA HA HA sem referência ao Black Alien, do Planet Hemp, fazendo favor (e faz uma cara que não ouço PH, observa-se).
convenhamos que a arte não é essas coisas todo mundo já viu coisa melhor, mas deixa quieto, o roteiro não é novidade, qualquer pessoa que já tenha perdido muito tempo da sua vida vendo FC dos anos 1950-1960 já está familiarizado com a ideia de vírus que vem do espaço pra fazer o caos na Terra e vem aligenígenas resolver a parada e os humanos têm que ajudar a fazer a parada.
essa é a premissa de Aliens vs Zombies, de roteiro de Joe Brusha (1001 Arabian Nights: The Adventures of Sinbad, Grimm Fairy Tales, Hellchild) [que teve a ideia da história com Ralph Tedesco (idem + Grimm Tales of Terror, Escape From Monster Island, Final Destination: Death Never Takes A Vacation)], arte de Vicenzo Ricardi (todos os já mencionados) e cores de Grostieta. [a narrativa] rola, SÓ PRA VARIAR, nos Estados Unidos, mas não é em Nova York ou em Los Angeles. começa quando um aerólito meteorito cai em Florence, distrito do condado de Burlington, no estado de Nova Jersey, e um monte de locais vão ver o que é o aerólito meteorito “trouxe um vírus alienígena que transforma todo mundo em zumbi, quem quer amostra grátis?” [essa piada não foi legal].
então, quando uma nave identifica a localização do vírus em nosso planeta (localizado no 104º Quadrante e não no 2814º), eles tocam a mula pra cá. simultaneamente, o presidente dos EUA manda tocar fogo no país enquanto ele pica a mula pra algum bunker super secreto. MAAAAAAAAAAAAAAAAAAS um dos soldados que faria parte da equipe do Força Aérea Um é mordido por um zumbi e vira zumbi justamente dentro do avião quando a equipe alien de desinfetação já ‘tá no ponto pra fazer seu trabalho de limpar o planeta, e faz o F.A.1 colidir com a espaçonave e ai começar o jogo de verdade na Streets of Philadelphia Filadélfia (cria eu que fosse a capital de algum estado estadunidense, é a cidade mais populosa do estado da Pensilvânia, sendo capital do condado homônimo).
(não deu, eu tive que fazer o link huaheauehauehaeuaheua)

equipe aligenígena de desinfetação: Misk, co-navegadora e oficial médica da espécie Risk; Chi’tak, chefe de armamento da espécie Kreel; Cromm (NÃO AQUELE CROM!), oficial de navegação da espécie Brakomi; Tamariel, cientista da espécie Vordi; Balgar, oficial de engenharia da espécie Zargan; e, por fim, capitã Nova e primeiro-imediato Raxus, da espécie Sairkilliain.
uma parte da nave cai em uma parte do condado e outra em outro, as duas equipes “arrudeadas” por aliens. em uma parte da nave tem o hardware e o software que ativam as esferas do dragão que vão limpar os contedores da praga, em outra a antena que manda o sinal para tais esferas. e o que a equipe vai fazer? isso mesmo, se aliar com os humanos mais próximos para concluir seu objetivo. e é claro que isso vai dar merda.
Brusha e Tedesco não tiveram uma ideia ruim, de verdade. não é um Promethee da vida, ou um Olympus Mons (ambos da dupla Cristophe Bec no roteiro e Stefano Raffaele, pela editora francesa Soleil) ‘tá, sim, parei, eu sei que peguei MUITO PESADO agora, tem muita HQ de alien realmente legal, mas Aliens vs Zombies NÃO É uma delas. sim, eu ‘tô sendo chato, o vilão secundário ser um negro criminoso gansta rapper estaile ofi laifi não me agradou, podiam ter pego algo muito menos estereotipado (mas é uma HQ produzida nos EUA, não poderia esperar algo muito diferente) e a espécie humana ter uma chance real de sobreviver que outras espécies não tiveram me fizeram ficar com a mesma cara de cu e o mesmo gosto ruim na boca que tive ao final de Independence Day 2. “Destino Manifesto” é o meu pau atolado dentro dos cus de vocês, caralho! 
Promethee, CRÁSSICO IMEDIATO, leiam sem pena quando tiverem oportunidade
Olympus Mons, outro CRÁSSICO IMEDIATO, valeu o mesmo de Prometheus
o ÚNICO “Destino Manifesto” que eu levo a sério é esse aqui, ó

mas... será que como game? funcionaria lembra muito um Alien Storm ou mesmo um Alien Soldier, mas teriam que dar uma senhora refinada na questão narrativa (uma chupada [UI!] em The Comix Zone, do Mega Drive, cairia até que bem), alternando cada fase um plano narrativo, até os dois se encontrarem um esquema multiplayer também seria foda. como animação só caberia se fosse de cunho adulto, ainda que criança já tenha se acostumado e ver morte a torto e a direito na mídia. live action nem pensar, mesmo que o Lenilton (do Gibiscuits) já tenha me dito que muita HQ tenha sido/seja feita pra virar L.A. ([live action] o que eu particularmente acho uma bosta, mas infelizmente minha opinião não conta), não creio que este seja o caso de Aliens vs Zombies. ou... se foi, foi um senhor fora muito valendo.
Alien Storm, de 1991, da Sega softwarehouse
Alien Soldier, de 1996, da Treasure softwarehouse
The Comix Zone, de 1995, também da Sega softwarehouse

Aliens vs Zombies não é uma leitura inesquecível, seria mais um... “conhece? sim, é um lixo, mas serve como passatempo pra salvar tua tarde e pra saber o que HQ de ficção cientifica é boa e o que HQ de ficção cientifica é ruim”. e Aliens vs Zombies quer MUITO ser uma HQ de ficção cientifica boa. mas nem o papa-jerimum Oscar Daniel Bezerra Schmidt (1958-) começou fazendo cesta de três pontos no seu primeiro jogo oficial, então.........
CEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEESTA DO OSCAAAAAAAAAAAAAAAAAR

e “FELIZ ANIVERSÁRIO!!!” e “MUITAS FARRAS NA VIDA!” para o meu chegado JEREMY MONTEIRO!


e é isso ai! leiam HQs!

BIS ZU DEM BREAKIN FUCKIN NEUEN POST!!!!

sábado, 29 de junho de 2019

poema sem título e ainda incompleto

de tanto ouvir “My Generation”, do The Who [do álbum My Generation, de 1965], desde sempre, e estar ouvindo a versão original de “Como Nossos Pais”, do Belchior [do seu álbum Alucinação {ver todas as letras no post anterior a este}], acabei escrevendo esse texto a seguir. ainda vou mudar muita coisa e colocar mais coisa, mas gostei tanto do que escrevi até agora que decidi postar.
FUCKIN ENJOY IT!

[por ora, sem título]
eu faço parte de uma geração perdida e desencantada
nos foi prometido o mundo e, ao receber, “foi isso o que vocês deixaram pra gente?”.
fazemos parte da geração que mais toma remédios para suportar e nos curar
de males que sempre estiveram por ai, desde quando o mundo é mundo,
mas só agora deram a devida atenção
porque nascemos para não deixa-los [estes males] tomar o mundo.
somos de uma geração alquebrada desguiada e não-guiada
para não repetir os erros das gerações anteriores, criamos nossos próprios erros
ainda na nossa época, estamos pagando por eles
e dano nosso jeito, entre erros e acertos, que não se propaguem a nossos descendentes
o que deixaremos a eles
como serão os próximos choques de geração
ou deveria achar normal os filhos dos meus amigos já tendo filhos
ou mesmo morrendo antes dos pais e avôs
pais e avôs e mães e avós não estão nem sempre certos em tudo
o resultado está aí pra quem quiser ver...
no que eles falharam? no que nos nós falhamos?
minha geração, não precisa dizer, não é infalível
talvez seja a mais falível
temos informação e vontade mas estamos desorientados e alienados
muitas vezes, muitíssimas vezes opcionalmente alienados, dopados, isolados
amedrontados, desencorajados, por tudo que é, está e invariavelmente será.
é pra ter esperança é pra rir ou pra chorar
ninguém solta a mão de ninguém, como dá as mãos não conseguindo fingir que não está frustrado e em pânico?
seguimos frustrados, vai com frustração mesmo...
seguimos em pânico, vai com pânico de qualquer jeito...
aos trancos e barrancos, nas coxas, às três porradas
depressão e angústia e ansiedade e síndrome do pânico e borderline são realidades nem sempre amenizadas
com/por medicação e terapia!
olhamos para o abismo, mas nos tornamos o abismo ou nascemos e vivemos nele
ou olhamos para o abismo porque nascemos e vivemos nele e não percebemos?
o quanto refletimos sobre isso na condição de
geração perdida e desencantada e (auto)enganada e (auto)desguiada?
somos privilegiados mas nos frustra não sermos todos privilegiados por igual 
indiretamente ainda conscientemente contribuímos
para os perenes reforçar e aprofundar deste cânion e outros correlacionados
nos deixando ainda mais perdidos e desencantados.
não somos só derrotados pelos erros dos outros, mas também pelos nossos e 
por quanto tempo aceitaremos?
em que momento revidaremos?
creio que só teremos, enquanto geração, uma chance de vencer
se formos todos juntos...
(consegu)ir(e)mos todos juntos?


:: 25 a 27 de junho de 2019 ::

terça-feira, 25 de junho de 2019

BELCHIOR - ALUCINAÇÃO - 1976

BELCHIOR
ALUCINAÇÃO
1976
APENAS UM RAPAZ LATINO-AMERICANO
Eu sou apenas um rapaz latino-americano, sem dinheiro no banco,
sem parentes importantes e vindo do interior.
Mas trago de cabeça uma canção do rádio
em que um antigo compositor baiano me dizia
“– Tudo é divino, tudo é maravilhoso!”

Tenho ouvido muitos discos, conversado com pessoas
caminhado meu caminho, papo, som, dentro da noite
e não tenho um amigo sequer que ‘inda acredite nisso, não,
(Tudo muda!) E com toda razão!
Eu sou apenas um rapaz latino-americano, sem dinheiro no banco,
sem parentes importantes e vindo do interior.
Mas sei que tudo é proibido.
(Aliás, eu queria dizer que tudo é permitido
Até beijar você no escuro do cinema quando ninguém nos vê!)

Não me peça que eu lhe faça uma canção como se deve,
correta, branca, suave, muito limpa, muito leve.
Sons, palavras, são navalhas
E eu não posso cantar como convém
sem querer ferir ninguém
Mas não se preocupe, meu amigo, com os horrores que eu lhe digo.
Isto é somente uma canção
A vida realmente é diferente, Quer dizer,
ao vivo é muito pior.

Eu sou apenas um rapaz latino-americano, sem dinheiro no banco.
Por favor, não saque a arma no saloon, Eu sou apenas o cantor.
Mas se depois de cantar você ainda quiser me atirar
mate-me logo, à tarde, às três,
que à noite eu tenho um compromisso e não posso faltar
por causa de vocês.

Eu sou apenas um rapaz latino-americano, sem dinheiro no banco,
sem parentes importantes e vindo do interior.
Mas sei que nada é divino. Nada.
Nada é maravilhoso. Nada.
Nada é secreto. Nada.
Nada é misterioso, não!

VELHA ROUPA COLORIDA
Você não sente nem vê
Mas eu não posso deixar de dizer, meu amigo
que uma nova mudança em breve vai acontecer,
E o que há algum tempo era jovem e novo, hoje é antigo,
E precisamos todos rejuvenescer.

Nunca mais meu pai falou: “She’s leaving home
e meteu o pé na estrada, like a rolling stone!”
Nunca mais eu convidei minha menina
para correr no meu carro... loucura, chiclete e som
Nunca mais você saiu à rua em grupo reunido
o dedo em V, cabelo ao vento, amor e flor, que é do cartaz?
No presente, a mente, o corpo é diferente
E o passado é uma roupa que não nos serve mais.

Você não sente nem vê
Mas eu não posso deixar de dizer, meu amigo
que uma nova mudança em breve vai acontecer,
E o que há algum tempo era jovem e novo, hoje é antigo,
E precisamos todos rejuvenescer.

Como Poe, poeta louco americano,
eu pergunto ao passarinho:
– Blackbird, assum preto, o que se faz?
E raven, never, raven, never, raven, never, raven, never, raven
assum preto, passo preto, blackbird, me responde: 
– Tudo já ficou atrás!
Raven, never, raven, never, raven, never, raven, never, raven
blackbird, assum preto, passo preto, me responde:
– O passado nunca mais!

COMO NOSSOS PAIS
Não quero lhe falar, meu grande amor,
das coisas que aprendi nos discos
Quero lhe contar como eu vivi
e tudo o que aconteceu comigo.
Viver é melhor que sonhar
Eu sei que o amor é uma coisa boa
Mas também sei que qualquer canto é menor do que a vida
de qualquer pessoa.
Por isso cuidado, meu bem! Há perigo na esquina.
Eles venceram e o sinal está fechado pra nós, que somos jovens.
Para abraçar meu irmão e beijar minha menina na rua
é que se fez o meu lábio o meu braço e a minha voz.

Você me pergunta, pela minha paixão
digo que estou encantado como uma nova invenção
Vou ficar nesta cidade, não vou voltar pro sertão
Pois vejo vir vindo no vento o cheiro da nova estação
e eu sinto tudo na ferida viva do meu coração.
Já faz tempo e eu vi você na rua, cabelo ao vento, gente jovem reunida
Na parede da memória esta lembrança é o quadro que dói mais
Minha dor é perceber que apesar de termos feito tudo, tudo, o que fizemos
ainda somos os mesmos e vivemos, ainda somos os mesmos e vivemos
como os nossos pais
Nossos ídolos ainda são os mesmos e as aparências, as aparências não enganam, não
Você diz que depois deles não apareceu mais ninguém
Você pode até dizer que eu estou por fora ou que eu estou inventando
mas é você que ama o passado e que não vê
mas é você que ama o passado e que não vê que o novo, o novo sempre vem
E hoje eu sei que quem me deu a ideia de uma nova consciência e juventude
está em casa, guardado por Deus, contando o seus metais.
Minha dor é perceber que apesar de termos feito tudo, tudo, o que fizemos
ainda somos os mesmos e vivemos, ainda somos os mesmos e vivemos como os nossos pais

SUJEITO DE SORTE
Presentemente eu posso me considerar um sujeito de sorte
porque apesar de muito moço me sinto são e salvo e forte
E tenho comigo pensado
“Deus é brasileiro e anda do meu lado”
E assim já não posso sofrer no ano passado.
Tenho sangrado demais, tenho chorado pra cachorro
Ano passado eu morri mas esse ano eu não morro

COMO O DIABO GOSTA
Não quero regra nem nada:
Tudo tá como o diabo gosta, tá
Já tenho este peso, que me fere as costas
e não vou, eu mesmo, atar minha mão.

O que transforma o velho no novo
bendito fruto do povo será
E a única forma que pode ser normal
é nenhuma regra ter:
é nunca fazer nada que o mestre mandar
Sempre desobedecer
Nunca reverenciar

ALUCINAÇÃO
Eu não estou interessado em nenhuma teoria,
em nenhuma fantasia nem no algo mais
nem em tinta pro meu rosto ou oba-oba, ou melodia
para acompanhar bocejos, sonhos matinais.
Eu não estou interessado em nenhuma teoria
Nem nessas coisas do Oriente, romances astrais
A minha alucinação é suportar o dia-a-dia
E meu delírio é a experiência com coisas reais

Um preto, um pobre, uma estudante, uma mulher sozinha
blue jeans e motocicletas, pessoas cinzas normais
garotas dentro da noite, revólver... Cheira, cachorro!
os humilhados do parque com os seus jornais...
Carneiros, mesa, trabalho, meu corpo que cai do oitavo andar
E a solidão das pessoas dessas capitais,
a violência da noite, o movimento do tráfego
Um rapaz delicado e alegre que canta e requebra (É demais?)
Cravos, espinhas no rosto, rock, hot dog… Play it cool, baby!
Doze jovens coloridos, dois policiais
cumprindo o seu duro dever
e defendendo o seu amor... Eh! nossa vida!
Cumprindo o seu duro dever
e defendendo o seu amor...É nossa vida!

Mas eu não estou interessado em nenhuma teoria
Em nenhuma fantasia nem no algo mais
Longe o profeta do terror que a Laranja Mecânica anuncia
Amar e mudar as coisas me interessa mais

NÃO LEVE FLORES
Não cante vitória muito cedo, não,
nem leve flores para a cova do inimigo
que as lágrimas do jovem são fortes como um segredo:
Podem fazer renascer um mal antigo.

Tudo poderia ter mudado, sim
Pelo trabalho que fizemos – tu e eu
Mas o dinheiro é cruel e um vento forte levou os amigos
Para longe das conversas, dos cafés e dos abrigos
E nossa esperança de jovens
não aconteceu, não.

Palavra e som são meus caminhos pra ser livre, e eu sigo, sim!
Faço o destino com o suor de minha mão
Bebi, conversei com os amigos ao redor de minha mesa
E não deixei meu cigarro se apagar pela tristeza
Sempre é dia de ironia no meu coração.

Tenho falado à minha garota
– Meu bem, difícil é saber o que acontecerá.
Mas eu agradeço ao tempo; o inimigo eu já conheço,
Sei seu nome, sei seu rosto, residência e endereço.
A voz resiste. A fala insiste: Você me ouvirá
A voz resiste. A fala insiste: Quem viver verá

A PALO SECO
Se você vier me perguntar por onde andei
no tempo em que você sonhava
de olhos abertos, lhe direi:
– Amigo, eu me desesperava!
Sei que assim falando pensas
que esse desespero é moda em 76.
Mas ando mesmo descontente
Desesperadamente, eu grito em português.
Tenho 25 anos
de sonho e de sangue e de América do Sul,
Por força deste destino
um tango argentino me vai bem melhor que um blues.

Sei que assim falando pensas
Que esse desespero é moda em 76.
E eu quero é que esse canto torto
Feito faca, corte a carne de vocês.

FOTOGRAFIA 3X4
Eu me lembro muito bem do dia que eu cheguei
Jovem que desce do Norte pra cidade grande
os pés cansados e feridos de andar légua tirana
De lágrimas nos olhos de ler o Pessoa
e de ver o verde da cana
Em cada esquina que eu passava um guarda me parava
Pedia os meus documentos e depois sorria
examinando o 3x4 da fotografia
e estranhando o nome do lugar de onde eu vinha
Pois o que pesa no Norte, pela lei da gravidade
– disso Newton já sabia! – cai no Sul, grande cidade;
São Paulo violento... Corre o Rio que me engana
– Copacabana, Zona Norte e os cabarés da Lapa onde eu morei

Mesmo vivendo assim, não me esqueci de amar?
Que o homem é pra mulher e o coração pra gente dar
Mas a mulher, a mulher que eu amei não pôde me seguir não
Esses casos de família e de dinheiro eu nunca entendi bem
Veloso “o sol (não) é tão bonito”
pra quem vem do Norte e vai viver na rua,
A noite fria me ensinou a amar mais o meu dia
e pela dor eu descobri o poder da alegria
e a certeza de que tenho coisas novas, coisas novas pra dizer

A minha história é talvez igual a tua:
jovem que desceu do Norte e que no sul viveu na rua
e ficou desnorteado – como é comum no seu tempo
e que ficou desapontado – como é comum no seu tempo
e que ficou apaixonado e violento como eu como você.
Eu sou como você! Eu sou como você!

Eu sou como você que me ouve agora!
Eu sou como você! Eu sou como você!

ANTES DO FIM
Quero desejar, antes do fim,
pra mim e os meus amigos,
muito amor e tudo mais;
Que fiquem sempre jovens
e tenham as mãos limpas
e aprendam o delírio com coisas reais.

Não tome cuidado.
Não tome cuidado comigo:
o canto foi aprovado
e Deus é seu amigo.
Não tome cuidado.
Não tome cuidado comigo,
que eu não sou perigoso:
Viver é que é o grande perigo.