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YEAH, HOUSTON, WIR HABEN BÜCHER!

e ai que tenho três livros de autoria publicada que fiz praticamente tudo neles e vou fixar esse post aqui com os três pra download e todos...

domingo, 15 de março de 2015

ANNA (SANTA) SOPHIA

ANNA (SANTA) SOPHIA 

“Aldous Huxley disse que um intelectual era uma pessoa que tinha descoberto algo mais interessante do que o sexo. Um homem civilizado, pode-se dizer, é alguém que descobriu algo mais interessante do que o combate.”
– John Keegan, A guerra e os antropólogos. Tradução de Pedro Maia Soares.


ROSTOS ALVOS ENTÃO EM ESCARLATE. Ranger de dentes. Espinhas curvas mas cabeças não abaixo. Nenhum pé a frente. Mãos aos uwagis, dedos com esparadrapos. Muros sem brechas. Cabelos cobrindo os olhos. Não mais olhos castanhos e sim pedras de carvão acesas novamente. Passadas minimamente acertadas. Às vezes, pé na canela ou uma puxada para baixo para não-falta por falta de combatividade. Mãos nos shitabakis eram shidô. Salvo sussurros entre os juízes e algumas pessoas falando entre si ou aos celulares, nunca uma semifinal de jogos brasileiros  fora tão silenciosa. Pelo mesmo estado, na mesma pesagem. Campo de batalha: a boa e velha e amada Belém. Quem diria que seria em casa? Mas quando elas lutavam...
Elas que tinham muito em comum mas não se pertenciam dentro do dojô ao serem escolhidas para uchi komi, que dirá em tatames de competição? As Annas que nem mesmo se cumprimentavam além da saudação-padrão. Me acredite, eu estava lá algumas vezes. Histórias diferentes e criações quase iguais. Cabe aqui dizer que me encantei por ambas por estatura e, por que não dizer e lembrar?, pelos modos nada sutis. Mulheres de ideal e atitude me abrem o interesse – e logo elas... Devo dizer que cai para trás e meu coração quase para fora da boca ao saber que elas também judocas, mas que não cantavam aos quatro ventos. E, uma vez que passei muito tempo afastado do esporte (festas, bandas, trabalho, essas coisas), não estava a par de que eram rivais dentro das quatro linhas. E até onde bem soube, somente nelas, uma vez que o contato era somente em treinos e competições (certo, e então perguntarás como sei que tinham muito em comum? Pesquisas por fora ajudam após as ver naquela tarde chuvosa da última quinta de outubro).
Faz quantos anos desde aquela tarde? Fora por algumas fotos, faz anos que não as vejo pessoalmente. Até onde sei, a loira agora é juíza e a morena é alguma coisa na Aeronáutica e coisa e tals. É, tivemos nossas diferenças e desentendimentos e cada um pro seu lado. “E a gente foi simplesmente parando de se falar...”, um pernambucano (Pedro, seu Fianna safado, estou falando com você) me disse uma vez. Tem o seu sentido, já aconteceu tantas vezes que... É, não foi a primeira vez e nem a última. Às vezes, isso dói. Mas digamos que já me acostumei a isso a ponto de esquecer, seja no dia seguinte, seja no momento seguinte. Somado à outras situações relacionadas à amizade (que não posso chamar exatamente de “confortáveis”), ou você aprende a viver com as pessoas entrando e saindo da sua vida ou você não vive. Algumas vezes, memórias são as melhores companhias. Outras, as únicas que você tem.
Cada uma já tinha um waza-ari . Então uma a seu lado, arrumar cabelos e judô-gi, Magalhães de branco (se pudesse, lutaria de preto, tal como alguns muitos jiu-jitsokas) e Medrado de azul (ela odiava lutar de azul). Era estranho vê-las sem óculos (sim, estou sorrindo). Vocês tinham que ver os outros das Letras lá, abismados e boquiabertos com a disciplina e determinação das duas. Eu mesmo disse “quem diria...” quando soube e já meio que previra tal reação do pessoal ao ver tal presepada quando vi os nomes delas na lista da seleção feminina. E, antes de retornar minha atenção à luta, Medrado levara um koka  por não ter tirado um pé a tempo – ainda consigo ouvir seus pais xingando os juízes a plenos pulmões. Nós, da UFPA, obviamente, quase derrubamos o ginásio da Escola Superior de Educação Física (“território inimigo”, como alguns disseram, muitos rimos) em comemoração, apesar das duas serem do mesmo time. Vocês realmente deviam ver quando começamos a gritar “Ih, foi mal, a minha é Federal!” (os pais da Sophia não sabiam onde colocar a cara ouvindo aquilo, mas acho que o pai dela ‘tava gostando devido um sorriso no canto da boca), nossos pariceiros de Letras da UEPA  quiseram a morte, mas... “amigos, amigos, universidades à parte...” Eu sei que vocês entendem.
Não deu tempo de comemorar muito. Sophia entrou de mau jeito em uma projeção que os juízes entenderam como shidô. E, malditos sejam eles e todas suas gerações a posteriori!, marcaram como shidô! E eis as duas novamente no mesmo páreo. Se tu achas que juiz de futebol é xingado em final de campeonato, devia estar lá naquele dia pra ver o que é zueira. Tiveram que pedir para nos acalmarmos e pararmos de gritar. Pessoal da UEPA não deixou por menos as encarnações de momentos antes: “cadê tua moral? Eu sou da Estadual!” E as meninas querendo se enterrar no tatame, tamanha a vergonha da bagunça na arquibancada. Anarquia somente freada quando o árbitro disse que a luta continuaria só e somente se a pândega parasse. Os pais delas suspiraram de alívio. E todo mundo “pooooooorra......”
Lembro de cada uma delas como se fosse ontem. Em sorrisos, em voz, em presença. A meu ver e por mais que elas me contradigam, cada uma maravilhosamente adorável de sua maneira, mesmo que, às vezes, tomada igualmente por ímpetos de melancolia ou jovialidade. Lembro de suas vozes, de seus quereres e sonhos díspares, do silêncio segurando as lágrimas devido à minha presença – “nem fudendo que vou chorar na tua frente”. Não foi como eu queria, com nenhuma delas, mas... Como eu disse... “Algumas vezes, memórias são as melhores companhias. Outras, as únicas que você tem”. E afinal... O que eu tenho delas? O que me resta delas? O que resta em mim nelas? As melhores lembranças, os melhores sorrisos, os melhores abraços – e eu queria ter tido os melhores beijos, porém porém porém (eu pareço estar frustrado, não? me acreditem, já aprendi a viver muito bem com as minhas frustrações). E como elas lembram de mim depois de todos estes anos passados? Se ainda lembram de mim, diga-se logo. Mas eu sei que alguém vai ver os nomes delas neste texto – que não pode ser exatamente categorizado como conto ou quiçá crônica – e, muito certamente, mostrar a elas. E então elas recordarão. O quê? Como? E então a chuva daquela tarde. E um trovão, talvez um enviado diretamente por mestre Thor.
E eis as duas novamente em pé. Dez segundos para o fim.
Hajime! 



:: 11 de março de 2015 ::

sábado, 14 de março de 2015

PORQUE AGORA INÊS É MORTA - conto completo

PORQUE AGORA INÊS É MORTA

“Eu sei que ela nunca mais apareceu
Na minha vida, na minha mente novamente”
– Cidade Negra, “À Sombra da Maldade”, Sobre Todas as Forças, 1994.


ESPERAVA A MAIS DE UMA HORA NA FRENTE DO ESCRITÓRIO DA TRANSPORTADORA, NÃO FUMAVA ANTES MAS AGORA COM UM CIGARRO NA MÃO. Chuva, muita chuva. Quanto tempo que não chovia daquele jeito? Não lembrava, queria poder lembrar. Sapatos e calças molhadas, a capa de chuva preta, presente dela enquanto ainda namorados. Alguns carregadores e até o encarregado pediram para ele ficar onde não molhasse, não foram ouvidos, “ah, foda-se”. Dava espaço para os caminhões, picapes e carros menores passarem. E começando a anoitecer não-lentamente, ainda a chuva e agora alguns trovões. Quanto tempo da última vez das mãos dela nas dele, e aquele sorrisos como as nuvens e os olhos como céu? Quanto tempo do queixo dela a seu ombro e o nariz ao ouvido até à lateral de seu queixo? E ela acordando a seu lado? Quanto tempo?
Ele veio lá longe, já no sobretudo e a capa de chuva prestes a ser aberta, era impassível à chuva, como se ela não estivesse lá ou se fosse afeito à ela de tanto tanto tempo. Soubera que ela havia lhe arrumado o emprego e ele do Norte do país até aqui, e então tomá-la para si. Todos já falando, comentando, apontando para ele. Não dormia mais, não pensava mais, não comia mais, que dirá sair da casa dos pais para onde voltara depois dela o deixar sem dizer palavra – faltava ao trabalho, ia somente para fazer número, olhando para a tela do computador ainda desligado. Ele o festeiro e mulherengo e recém-formado em Letras na Federal do Pará e então aqui. Ela uma vez dele, que ainda queria como dele e, principalmente, com ele. À direção dele em passos curtos, “esse puto anda rápido”. O viu parar e um momento estático, a sua mão à arma à cintura debaixo do casaco, tremia, ele virou, estava iluminado e podia ver a parte do rosto não coberta pelo gorro do sobretudo e pela barba, os olhos negros de filme de terror, inquietos e enlouquecidos, um passo à frente. Tremia tanto que não conseguiu tirar a arma, um passo à frente. “Ele vai me matar”, um passo à frente. O coração queria sair pela boca, um passo à frente. Se arrependeu por estar lá, um passo à frente. Queria poder dar um passo ou dois para trás, um passo à frente. Frente à frente.
Miguel, eu creio.
O dito balançou a cabeça afirmativamente.
Pensei que você não ia aparecer. Eu te pago um café. Vamos.
Miguel estranhou vê-lo cumprimentar muitos no local e então sentarem. Fora do sobretudo, vira que era menor que ele, em estatura e largura, podia quebrá-lo ao meio se não visse as fotos das competições de judô e medalhas subsequentes, repensou. todavia olhou a careca reluzente e barba de alguns fios já brancos já a ponto de trançada e pensou que judô seria a última coisa que usaria contra ele caso levantasse a mão. “Por favor”, ele pediu para que sentasse, antes que o fizesse e soltasse a gravata e abrisse o primeiro botão da camisa, “o lugar é ótimo, o único defeito é não poder fumar aqui dentro”, a moça bem magra levou os dois cafés e deixou o pote de açúcar entre os dois. O dito queria poder tirar o caso mas veriam o revólver e o caos estaria instalado, viu o barbudo escrever algo em um bilhete e lhe entregar, “coloque a arma dentro do casaco e coloque o mesmo na cadeira do seu lado”, ficou constrangido e envergonhado pela falta de tato e teve certeza de que não teria chance contra ele – casaco sobre a cadeira, revólver no bolso.
Veio falar sobre a Paulina, não?
Miguel em silêncio.
Olha, eu sei que tu estás puto, eu mesmo estaria, ela me explicou a situação quando eu cheguei, toda a situação. Pelo menos a parte dela, primeiro gole no café, está ótimo para esta chuva.
Acho que tu ainda não tens gravidade da situação, ela ainda é minha esposa e tu não sabes o que estão falando de mim por ai...
Tsc, ei. Eu sei, eu não sou surdo, eu não sabia como te encontrar mas sabia que tu ias dar as caras mais cedo ou mais tarde depois que eu aparecesse e tome o seu café. Eu sei que tu ainda a amas, ainda gosta muito dela, quer que tudo volte como era antes, mas... Rapá, vai por mim, ‘tá foda, isso não acontecer, nunca volta a ser como era antes, ela vai ter os dois pés atrás contigo pra tudo, mesmo que tu faças tudo certo. Te falo como voz da experiência.
Tu não sabes... O que a minha família fala. Um homem na casa dela...
Por pouco tempo.
... De uma mulher sozinha...
Não é por culpa dela.
... Casada com um filho de uma família tradicional...
(Altenor riu) E riu alto! Cotovelos à mesa, punho fechado à palma d’outra mão, de frente ao sul-rio-grandense que podia sentir o sorriso demoníaco por baixo da barba que considerava sinal de falta de higiene e respeito pessoal e com terceiros.
Rapá, se fosse pra tá comendo a tua mulher, eu já tava andando de mãos dadas com ela por ai e tirando fotos a rodo e postando por ai na internet e mostrando pros meus pares lá de Ananindeua e Belém. ‘Tá vendo essa morena aqui comigo? Ela ‘tá fazendo o mestrado na porra da Federal do Mato Grosso e vim aqui presse outro pólo de fim de mundo de país que a gente vive juntar o máximo de grana pra ir ficar com ela. Ela. É. A. Mulher. Da. Minha. Vida. Entende isso? Eu sei que entende, tu fizestes a mesma coisa pela Ana Paulina. Não foi? A única vez que encostei nela foi quando ela me abraçou quando nos vimos na rodoviária e daí nunca mais. Eu sequer a olho nos olhos.
É mentira!

É, ele veio.
E então?
Conversamos. Tentamos conversar.
Hum.
E a reação dele não foi das melhores.
Eu te falei que ele não ia acreditar nessa balela, não?
Porque eu simplesmente não fico admirado?
Não vão demorar para achar a arma pelas impressões digitais.
Uma arma? Ele ‘tava com uma arma?
Eu não fico admirado, olha...
Porra...
E agora...?
Ei.
Espera... Ele apontou a arma procê?
Não, a arma caiu do casaco e atingiu um senhor.
Jesus!
E agora?
Agora fudeu muito valendo pro lado dele, principalmente se o velho tiver morrido. Ai nada nesse mundo ajuda o cara, ainda mais sem porte de arma.

Ele foi preso cerca de três dias depois, o senhor morrera no caminho ao hospital. Impressões digitais na coronha, número da arma raspado, origem desconhecida, mas já estava sendo procurada por ter sido usada em dois assaltos com tiro e mais uma execução. Como previsto, carregadores, motoristas, encarregados e tantos outros o reconheceram, fora preso em um bar por civis à paisana atrás de outro suspeito que fora visto lá pela última vez. “Não devia ser assim”, ela repetia todas as noites antes de dormir, quando dormia, cabeça ao travesseiro, escuridão, o mesmo filme passando rente a seus olhos anis. “Altenor?”, o braço moreno sobre o tórax alvo até a mão alcançar o pulso.
Sim, Annie?
E agora?
Agora tu continuas.
Não era pra ser assim.
Nunca é como pensamos.
Annie?
Oi?
Eu gosto de como seus olhos azuis brilham quando tu falas.
ela sorriu




:: para Graziela Inês Jacoby, de Santa Maria do Rio Grande do Sul ::

:: 13 de março de 2015 ::

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

conto sem título

[¡sem título!]

Porra, André – ela de óculos escuros estilo Lennon, maiô, bermuda e sandálias; o coldre na perna, por uma abertura na bermuda que facilitaria o saque –, quem dera se toda missão fosse assim: ir atrás do bloco, chuva, marchinha, beber tudo sem ficar bêbado... 
Porra, Kat – Cahlkias de sandálias e bermudas, camisa na cintura –, eu também curto muito tudo isso, o foda é ter que ficar reparando aquele bando de jumento da universidade. 
E tudo pago pelo governo, olha – Jainchill observou. – Não que eu aprove esse gasto. E acho que cê também não, caloura.
A “caloura” era Kathaerine Pelegrina Melo, récem-recrutada pela ABIN como infiltrada no Movimento Estudantil da Universidade Federal de Pelotas, e um ano e meio mais nova do que Jainchil e três do que Calkhias. Era sua primeira missão de observação fora da universidade e arredores, sendo coordenada pelo londrinense e avaliada pela fluminense. André Magalhães e Jussara Grassetti compunham o resto da equipe, o primeiro monitorando o que Melo pegava com as câmeras em seus óculos (a altura dela ajudava pela visão mais completa do local) e a segunda monitorando a posição em campo do trio, que estava de olho nos “alvos”, mas a distância que pudessem ver e não ser vistos. Antes de sair, tomaram remédios especiais para não se embriagarem, independente do quanto bebessem, ou até mesmo se utilizassem outros tipos de drogas. Armas carregadas e posicionadas, identificação via satélite ok, identificação colada ao corpo caso fossem parados pela polícia ou afins ok, se misturaram com o povão.

Sim, porque eu iria trabalhar pra vocês? – incisiva.
Eu poderia te dizer que vamos te pagar muito bem...
Eu estudei sobre a ditadura e...
Não estamos mais na ditadura e o buraco é muito mais embaixo atualmente.
Multipolaridade mundial pós-Guerra Fria?
Eu disse que ela era uma boa escolha – Wackwitz abriu os braços para cima.
Fora que você viu o que viu em Fortaleza ...
O tal REX?
O tal REX.
E o que vocês fizeram com o......?
O apagamos do sistema e proibimos de repetirem o nome dele em voz alta por ai.
Não, ele não está morto. Só o trancamos e jogamos todas as chaves fora.
[silêncio]
Mas isso não responde minha pergunta: “porque eu?” E também minha outra pergunta “porque eu trabalharia pra vocês?”
Porque, se você não trabalhar pra gente e com a gente, vamos te apagar que nem apagamos aquele paraense doente mental filho da puta. Porra. Não podemos ter essa conversa e te deixar passeando por ai como se nada tivesse acontecido. Porra.
Ah...

Desespero total entre a multidão. “Não os percam de vista”, Magalhães gritou. Melo pensou em tirar a arma, mas, além de não achar prudente, lembrou-se “de só tirar a arma em último caso que não houvesse mais solução”. Já sabia o procedimento, separar-se e encontrar. A perua havia explodido no momento em que os alvos haviam se encontrado, impedindo que Magalhães e Grassetti fechassem a posição do negociador e rastreassem seu rosto no banco de dados. “Liguem os RE²Mics internos”, Grassetti ordenou, Melo odiava tais maquinários. Ela odiava o trabalho todo em si, se sentia uma traidora mentirosa imunda – que ganhava mais do que ganharia como professora de História ou historiadora ou mesmo designer – para entregar os amigos, tanto que usava o dinheiro somente para o estritamente necessário e dava o resto para os pais e instituições de caridade apoiadas pelo coletivo feminista que era integrante (e acabou conhecendo as lá infiltradas). O treinamento foi uma verdadeira barra e mais ainda por ainda ter que manter o peso de antes da convocação, para não levantar suspeitas, apesar de ter gostado de agora saber utilizar várias armas e técnicas de combate corpo-a-corpo que acreditava não poder fazer devido ao biótipo. Quase não completou os módulos de montagem e manutenção geral, infiltração, intimidação e tortura (por motivos óbvios), entretanto foi aluna exemplar em identificação, tiro, improvisação e adaptação, planejamento e combate corpo-a-corpo. Neste momento, corria atrás de atravessador um de drogas experimentais para a sua universidade e seu respectivo fornecedor. “Já fiz uma varredura por satélite”, Grassetti gritou, “não foi tiro de bazuca que atingiu a kombi, ela explodiu sozinha. Se concentrem no careca, deixem que os tubarões resolvam isso”.

Desde Fortaleza... – ela sussurrou. – Vocês ‘tão me monitorando desde Fortaleza...
Pra falar a verdade, foi a Jainchill e a Sagnol que deram a sugestão quando te viram lá.
Sagnol?
Ana Talita Sagnol. Se formou recentemente no mesmo curso que tu na Universidade de Londrina, mas agora é agente de campo mesmo. “Menos trabalho do que infiltrada”, foi o que ela disse.
Quantos... Infiltrados...?
Mais do que você pode imaginar. Competimos pau a pau com os militares, mesmo trabalhando com eles.
Têm militares infiltrados no Movimento Estudantil?!?!?
Você ia meter uma bala na cabeça agora mesmo se soubesse onde tem gente... Sorte a nossa que você não tem arma pra fazer nem autorização pra saber.

“Sara, fecha no meu sinal”, Lenina sussurrou, “‘tô do lado dele”. “Cahl, Kat, vão!”, Magalhães gritou após a morena de olhos bem negros informar a posição a eles e transmitir para seus celulares. O londrinense levantou o braço e fez um sinal com a mão, a pelotense viu e obedeceu – cada um chegar por um lado do alvo para fechá-lo. A caloura perguntou se Jainchill havia achado o atravessador ou o fornecedor. “O segundo”, a acreana respondeu, “o que vocês estavam esperando para encontrar”. Carros de polícia e televisão por todos os lados. Visualizou o local de encontro, um restaurante. Entrou. Após uma olhada rápida, viu a carioca, que fez sinal com a boca “é ele”, mas não pôde ser visto devido às pessoas à sua frente. O londrinense se aproximava pelo outro lado. “Caloura”, Magalhães, “fecha o foco nesse animal pra eu fixar a imagem e procurar no banco de dados”. O sangue subiu todo à cabeça dela quando o fez. Ferveu como uma caldeira já em ponto de derreter metal instantaneamente.
“Seu filho de uma puta”, ela rangeu os dentes. Ele olhou para ela. O resto de sua equipe não entendeu. “Eu prometi que ia te achar até no inferno”. O sergipano anunciou ter encontrado a ficha do procurado, Lenina pediu um tempo para saber o que a caloura faria. “Puta merda”, Aluizio Fernandes Rochedo se lembrou dela, “não você”. Antes que a analista de campo infiltrada no Movimento Estudantil da Universidade Federal do Rio de Janeiro pudesse pensar em algo, ele saiu rapidamente pelo outro lado, até mesmo fora do alcance de Cahlkias. “Kat, mas que porra...?”, Jussara.
Ele estuprou a minha irmã!
“VAI!”, Grassetti e Jainchill soltaram a corrente do lobo.



:: 17 a 19 de fevereiro de 2015 ::

domingo, 22 de fevereiro de 2015

O MAIS LONGO DOS MINUTOS - conto completo

O MAIS LONGO DOS MINUTOS


Encontro Nacional de Estudantes de Ciências da Religião (ENECiR)
Algum lugar do Brasil
Sábado, 17 de Fevereiro de 2008
10:35:50

ELES O VÊEM. O chamam pelo nome. Ainda está sonolento. Olhos querendo continuar fechados. Eles gritam seu nome. Escova de dentes em uma das mãos. Toalha em um dos ombros. Nem sabe se as sandálias aos pés são suas. Ele levanta a cabeça, abre a boca
E o mundo pára.
NENHUM dos lá presentes jamais esquecerá o que ouviu aquela manhã. O mais longo dos minutos. O mais infinito e interminável. Quando todo um campus e arredores ouviram aquilo que era indistinguível entre um rugir e um estrondo. E os corações inflados de pavor e desespero por sessenta segundos completos. Se possível fosse, corações parariam e pássaros presos em pleno ar. Crianças presas às pernas de pais e mães e professores. Mãos quase quebrando dedos. Somente o estômago rasgando o silêncio. E então o mundo em silêncio. Outra vez.
Abaixou a cabeça. Virou-se para eles. “Me chamaram?”
“Não, cara”, horror em corações e mentes, “nada não.”
Foi tomar banho para tomar café. O sábado prometia como último dia de evento.



:: para Endressy Anselmo Pereira da Silva, a.k.a. “Arroto de 99 Hits” ::

:: 21 de fevereiro de 2015 ::

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

conto sem título

[!sem título!]

ELA NÃO SABIA NO QUE PENSAR. Os cabelos enrolados e puxados para trás, torcendo seu pescoço. Os dedos apertando quase entrando em sua carne. A pica que dilatava a buceta e martelava o útero. Quando não gemia para acordar uma casa, rangia os dentes como um tubarão em direção inexorável à presa.
Ele era o irmão mais novo do amigo de escola. Ela estava na seca há quase dois meses e o fez tanto para enfim se saciar e enfim ser dona da situação quanto por acreditar que ele era “mais um virjão que precisava conhecer uma mulher de verdade”. Mas que ledo engano! De branca como uma boneca de porcelana, tornou-se escarlate quanto a bandeira do estado ou um buriti  maduro esperando para ser colhido: foi mordida, chupada, lambida, estapeada... “Hoje você vai ser a minha puta!”, ele gritava como um trovão. Ensandecido. “Imagina o tanto de punhetas que bati pra ti”, ele urrava enquanto colocava a língua toda ora dentro da buceta ora dentro do cu da ruiva tingida de farmácia, fazendo seus olhos verdes revirarem em seus eixos em todas as direções, abrindo as pernas com as mãos. Quando a língua estava dentro da buceta, dois dedos grossos dentro do cu. Quando a língua estava dentro do cu, dois dedos grossos dentro da buceta. Quase arrancou os mamilos ao mordê-los e chupá-los tal como quando o fez com a língua.
Perdera o ar novamente quando viu o tamanho do pau do moço. “Me fudi”, pensou em voz alta. Ele sorriu diabolicamente. “Devagar”, pedira. Prendeu a respiração quando ele colocou a camisinha e a colocou à beirada da cama, de pernas abertas e os quadris à margem. Perdeu-se em engasgos e soluços quando sentiu entrar. “Sua vadia apertada”, ele gemeu. “Puta que pariu”, ela gemeu, “é muito grande. Não coloca tudo”, pediu. Tarde demais, sentiu as bolas batendo à bunda. Tremia. Ele tirou à metade, mas não a aliviou. “Meu Deus”, sussurrou de olhos fechados. Se amaldiçoou por ter escolhido justamente aquele e não o magrinho que também usava óculos de lentes grossas ou o negro de lábios bem carnudos com problema de fala. “Não, negros tem pau grande e ele pode me partir no meio”, riu bem alto ao falar com uma colega de faculdade. “Pode gritar bem alto, sua puta”, ele disse depois lhe esbofetear a cara, “minha irmã também é escandalosa e meus pais ‘tão viajando a trabalho”.
Não tinha forças para chorar ou responder contra. Mas gemeu bem alto quando ele começou o vai e vem. Uma mão estava em seu ombro e a outra na cintura dele. Um breve momento em pausa antes dele colocar as duas mãos em seus ombros e começar a meter rápido. Teve certeza que a coisa ia piorar ao sentir as mãos no pescoço e os dedos no queixo, quase à boca. Acelerou. Enfim começou a bater no útero e os gritos ressoando pela casa. A irmã colocou o som nas alturas para não ouvir a moça. “Eu sabia que ainda ia te comer, sua vagabunda”, o gordo disse roçando a barba em um dos ouvidos, “cansei de falar isso pro viado do Eusébio e o fresco só ria da minha cara”, ela não diferenciava palavras, morfologia ou sintaxe em sua atual condição, “‘A Isabel? Mas nunca que tu vai conseguir comer, os caras mais fodônicos da escola e da faculdade não comeram, tu vai conseguir comer?’”, repetiu as palavras do irmão mais velho, amigo dela de escola. “Quer saber? A gente batia punheta junto pra ti, sua cadela”, dois dedos na boca da mulher, a mão segurando o rosto, vara verde não era nada comparando ao quanto ela tremia. Fechou as mãos em seus pulsos, gritos presos na garganta.
Ela saía para caminhar depois que acordava. Como ele estava de férias, lhe cabia levar os cachorros para passear assim que os pais acordavam. “Porra, mas a Elizabete também ‘tá de férias da universidade”, reclamou, “Vai logo, seu vagabundo”, os pais replicaram em coro. Ela trabalhava à tarde e o rumo da casa dele estava em seu trajeto. Se encontraram, ela o reconheceu e puxou assunto. Demorou para a ficha cair nele mas não perdeu tempo quando aconteceu. E lá uma punheta para a amiga de escola do irmão, (tal como a irmã mais velha) o perfeitinho primeiro da turma e homenageado da faculdade queridinho dos pais e professores e chefe e tios e o caralho a quatro, e ele sempre considerado o filho da puta inútil imprestável. “Te fode agora, Eusébio”, falava em voz alta, “‘tô comendo essa puta na tua cama, pra tu deixar de ser otário e parar de me sacanear”. SE ela ouvisse, a transa terminaria naquele momento. SE. Antes do fim da primeira semana, ela já estava de mãos dadas com ele, que não acreditava na situação. Na seguinte, além de o abraçar em público, já lhe pagava sorvete e fazia questão que a deixasse em casa. E no fim da segunda, ela de calcinha e sutiã sobre a cama. “Vem”, disse, “hoje eu sou só pra ti”. Por fetiche dele, a fez colocar as meias ¾ e os tênis. “EI!”, disse em voz alta ao sentir as primeiras mordidas e lambidas, “não me bate”, ao sentir as tapas, “eu fico toda vermelha e meus pais vão ver”. 
FODA-SE. Abriu as grandes nadégas da grande bunda redonda para colocar a língua no cu da “porcelaninha” (como era chamada pelos pais e professores). Cuzinho rosado, buceta depilada, mais rosada ainda. Para ela, era uma experiência nova: transar com um gordo, maior com ela na estatura, tamanho e largura e ter a sensação de ter os “buracos” invadidos por uma língua imensa e barba grossa à altura dos mamilos. “Deve ter pau pequeno”, a amiga dela da faculdade comentou, as duas e as outras à mesa riram bem alto, faziam o possível tamanho com uma das mãos, os risos preenchiam o bar e restaurante e pizzaria. Para ele também: a amiga do irmão mais velho – cobiçada só por todos que conhecia, mulheres e homossexuais do sexo masculino inclusive – e não as conhecidas do bairro, ou primas dos amigos ou amigas dos pais ou filhas destes (e ai dele se os pais ou maridos e pais destas soubessem!). “Deixa eu te chupar”, ela disse. “Oooooooooooooooook”, ele a puxou pelos cabelos.
“Caralho”, disse em voz alta, o pegou com uma mão, não conseguiu fechá-la. Não podia ver o sorriso debaixo da barba. Colocou a glande dentro da boca e sentiu a mandíbula abrindo quase ao máximo. “Isso vai me fuder”, disse olhando para o mastro. “Seja legal comigo, viu?”, pediu. “Pode crer que sim”. “‘Pode crer que sim’ o quê?” “Pode crer que isso vai te fuder valendo”. Isso foi a duas horas atrás, ele já estava montado nela de quatro ao chão, com o rosto nos antebraços, gemendo em voz alta, que podia ser ouvida da porta da casa. Um morango não estava vermelho como ela, marcas de dentes e mãos, uma poça de suor no quarto e a casa seria tomada pelo cheiro de sexo animal quando a porta fosse aberta. Sem mais lençol à cama e o case do violoncelo do irmão já ao chão sendo empurrado pela cama.  
“Hoje eu vou dar”, levantou decidida da cama. “Aquele gordo vai levar uma surra de buceta que ele nunca mais vai esquecer na vida”, entrou para tomar banho, “Vai ser a inauguração inesquecível daquele nerd virjão”, nem enxugou os cabelos “De hoje não passa”, colocou as camisinhas dentro da calcinha antes de vestir a legging. Prendeu os cabelos (“preciso retocar a pintura de cabelo”, pensou olhando para o espelho) e colocou o cordão com as chaves de casa. “Vou dar muito e vou acabar com aquele gordo”, boné pra trás e ritmo na corrida, “Vou dar muito e vou acabar com aquele gordo”. Estava estirada à cama, quase como um cadáver. Arfava forte. As mãos tremiam, tremia toda. Já completamente sem voz após o trovejar quando ele penetrou seu cu, mesmo tomando um anestésico e lubrificantes terem sido passados no local e proximidades (ele chegou até a misturar o anestésico com os lubrificantes) mas o tamanho de seu “instrumento” foi demais para a mulher. Sentia bater em sua garganta, quando não martelava diretamente seu cérebro. Por um momento, lembrou-se que ainda tinha que começar a advogar um caso importante para a promotoria aquele dia – aquele dia não mais. Ele ao chão, cigarro aceso e um copo de café. Antebraços nos joelhos e costas à parede.
Quando ela acordou, começava a anoitecer. Luz apagada. Virou-se com dificuldade, barriga e olhos ao teto. Estalou toda ao sentar-se à cama. “Vim sem maquiagem”, pensou consigo ao colocar os dedos nas olheiras, “devo estar horrível”. Lembrou-se onde estava, não tinha lençol para se cobrir. Levantou-se com mais dificuldade ainda, queria ficar/permanecer deitada mas tinha que voltar para casa, os pais deviam estar loucos de preocupação, uma vez que saía antes deles acordarem. Pior ainda, não levava telefone. “Porque porra ‘tô de tênis e meias?”, se perguntou ao ver as pernas, “Ai, meu Deus”, disse ao ver as marcas de mãos pelos braços e vermelhidões pelo corpo, “caralho, meus pais vão me comer viva quando verem isso”. Ele abriu a porta quando ela estava indo em direção ao interruptor para procurar as roupas. Ela, ao assustar-se, pôs as mãos à virilha e aos seios, não sabendo o que esconder. Ele riu, “pára com isso, sua louca, fudemos o dia inteiro e agora tu me vem com isso?”. “Fecha a porta”, ela pediu. “Não tem ninguém em casa, tira esses tênis e vem pra eu te dar um banho”.
Depois de um senhor sermão histórico-homérico dos pais sobre ter saído sem telefone e não ter avisado para onde ia e ter demorado uma vida para voltar e outro do chefe por ter faltado a um compromisso diversas vezes remarcado e adiado, novamente estirada à cama – mas enfim a sua. Novamente nua, cara no colchão, nem se perguntou porque os pais não tinham perguntado sobre as marcas vermelhas na cintura, barriga, braços, colo, quadris e pescoço. Ligações e mensagens de meio mundo ao telefone, nem quis ligar o notebook para ver os e-mails. “Pelo menos de blazer, não vão ver as marcas pelo corpo”, pensou. Quase não atendeu o telefone. “Isabel”, disse. “Isa, é a Marta”.
Ah, oi.
E ai? E o gordo virjão?
Rolou.
Rolou? E ai? Me conta.
Mulher... Ele me fudeu valendo. Eu nem te conto...
Como assim ele te fudeu valendo? Que aconteceu?
Ele não era o virjão que eu pensava, isso sem falar no tamanho do pau dele.
Mazuh caralho! Como assim, pau de jegue mesmo? [risos]
E ainda colocou no meu rabo. Vou ficar sem andar pelo resto da vida.
CA-RA-LHO-! [risos] Vai me dizer que ele também te deixou toda vermelha de tanto te chupar, morder e bater.
Caralho, Marta, ‘tô pior que nem morango maduro. Só tu vendo.
[risos] Puta merda, Isa. Só tu mesmo. Mas e ai? Vai rolar de novo ou vai deixar “prazamiga” também saber se ele é tudo isso? [risos]
Porra nenhuma! Aquele pau é só meu.
Pooooooooooooooooooooooorra, ruiva. Como assim? Se apaixonou pela pica do gordo mesmo? [risos]
E num é? Amanhã ‘bora almoçar juntas. Reúne o resto das putas que conto toda a história pra vocês.
Elas já ‘tão aqui e ouvindo a conversa toda.
Porra, Marta. Porra, Marta. Porra, Marta. 
Onde amanhã? Cardin ou La Vera?
[voz da Érica ao fundo] A Tia Joana tem promoção de dieta nos almoços de quinta. 
Pode ser mesmo. Quem mais ‘tá de dieta além de mim e da Moltrasia?
Praticamente todas nós, disque. Sempre essa história. [risos] A Bel ‘tá perguntando se esse gordo é o irmão do Kiesel, que fez o Médio com a gente. 
É, o Elias, irmão do Eusébio Kiesel, o lindão da nossa sala.
[risos gerais] [voz da Bel ao fundo] Porra, logo quem? Ele joga RPG e videogame com meus irmãos. Não tinha um menos gordo e menos nerd, não? [risos]
Esqueceu de falar “um menos roludo”. [risos delas] Mas sim, suas vadias, preciso terminar de dormir. Onde amanhã?
Na Tia Joana mesmo. Depois a Val desce contigo pro Tribunal de Justiça.
Perfeito. Beijo, Marta. Até amanhã. Beijos nesse bando de piriguete ai.
Beijão, Isa. Beijos das putas.
Telefone desligado. Ligação encerrada. Cochila por instantes que parecem ser horas. Levanta a cabeça. Telefone novamente. Telefone residencial. Ela atende. “E ai, mulher?”
Quem......?
Elias.
Ah! [silêncio] Como tu conseguistes esse número?
Pedi pra hackearem o telefone do Zé [Eusébio].
Ah! [sobrancelhas levantadas e testa franzida; “caralho”, ela pensa]
Só pra constar, tu não és a única Isabel que ele conhece.
Ah! [olhos fechados]
Liguei pra saber se estás bem.
Depois de ter levado um senhor carão dos meus pais e do meu chefe e ser zoada pelas minhas amigas por transar com o gordo nerd dito virjão irmão do bonitão gostosão do Ensino Médio, posso dizer que estou bem.
É, eu ouvi tua a conversa com elas.
COMO? [ela acorda realmente]
‘Te zoando, mulher. Só pedi pra hackearem o telefone do Zé pra pegar teu número. Vamos nos ver amanhã?
Pode ser. [ela sorri] Não colocando no meu cu, pode ser sim. Na sua casa?
Mesmo horário, pode passar aqui sim. Foda delivery, sabe?
Isso não tem graça. Já ‘tá fazendo gordice.
Ei, esse é meu charme [risos]. Beijos e durma bem, sua vadia.
Beijo e até amanhã, gordo filho da puta.
[silêncio]
Obrigado pela foda.
Sou eu que agradeço, mesmo tendo ficado literalmente fodida depois dela.
[risos] Ok, ok. Sempre que precisar, já sabe...
Foda-se, esse pau é só meu a partir de agora.
[risos] Ok, ok. Você manda. Sua exclusivista egoísta do caralho.
Foda-se novamente. Tenho que dormir. Beijo, beijo. E beijo nessa pica que é só minha a partir de agora. Beijo.
Beijo, sua puta. Até mais.
“Eu bateria uma siririca se tivesse força”, ela pensa novamente de cara no colchão. Mal sabe que vai acordar na hora de encontrar com as amigas no dia seguinte. “Nem, eu não vou dividir porra nenhuma”, ela ri com elas ao redor da mesa, “Arrumem os gordos barbudos picudos nerds de vocês que aquele é só meu”, risos que enchiam o local. “A gente pode ver, pelo menos?”, Catarina pergunta de forma debochada. “Podem ver e até filmar pra se matar na siririca depois, mas só isso”, a resposta. Antes do final do dia, o blazer e a saia e as roupas íntimas ao chão do quarto, ela o puxando pela barba e ordenando-lhe em gritos que não parasse para toda a vizinhança ouvir.



:: agradecimentos especiais a Bruno “Immortal” Silva, Neuton Martins Vieira Filho e Dannyllo Borges [Londrina-PR] pela idealização do personagem “gordo nerd virjão” ::
:: 12 de fevereiro de 2015 ::

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Sobre os bombardeios anglo-estadunidenses às cidades alemãs durante a II Guerra Mundial - parte 2

“O zoológico – ele deveria ter constituído uma das partes principais na apresentação dos muitos momentos, horas e anos de horror. Nunca, porém, diz [Hans Dieter] Schafer, consegui ao escrever evocar ‘os acontecimentos terríveis em toda a sua violência’. ‘Quanto mais decidida a minha busca [...], mais eu tenho que entender a dificuldade com que a memória avança’: No que diz respeito ao zoológico, um volume de materiais organizado por Schafer sobre Berlin im Zweiten Weltkrieg [Berlim na Segunda Guerra Mundial] dá uma ideia do que lhe pode ter passado pela cabeça. O capítulo ‘Bombardeios de saturação entre os dias 22 e 26 de novembro de 1943’ contém passagens de dois livros (Katharina Heinroth, Mit Faltem begann’s - Mein Leben mit Tieren in Breslau, München und Berlin [Começou com as borboletas - minha vida com animais em Breslau, Munique e Berlim], Munique, 1979, e Lutz Heck,Tiere - Mein Abenteuer. Erlebnisse in Wildnis und Zoo [Animais - Minha aventura: experiências na selva e no zoológico], Viena, 1952), nos quais se obtém uma imagem da devastação do jardim zoológico por esses ataques. Bombas incendiárias e botijões de fósforo puseram fogo em quinze construções do zoológico. A casa dos antílopes e das feras, o prédio da administração e o casarão do diretor foram completamente incendiados, a casa dos macacos, o prédio de quarentena, o restaurante principal e o templo hindu dos elefantes, seriamente danificados ou destruídos. Um terço dos 2 mil animais que ainda restavam depois da evacuação morreu. Veados e macacos se soltaram, pássaros escaparam pelos tetos de vidro quebrados, ‘surgiram boatos’, escreve Heinroth, ‘de que leões dispararam em fuga até as proximidades da Igreja Memorial do Imperador Guilherme; enquanto, na verdade, eles jaziam, asfixiados e carbonizados, dentro de suas jaulas’. Nos dias seguintes, uma mina aérea arrasa o precioso edifício de três andares do aquário e o pavilhão de trinta metros de comprimento dos crocodilos, juntamente com a paisagem artificial de mata virgem. Agora encontravam-se lá, escreve Heck, entre blocos de cimento, terra, cacos de vidro, palmeiras e troncos de árvore derrubados, lagartos gigantes se contorcendo de dor na água rasa ou caindo pela escada de visitantes; enquanto, no fundo, pela abertura de uma porta escancarada pela explosão, penetrava o clarão vermelho do fogo de Berlim que sucumbia. Também foram horrendos os trabalhos de desobstrução. Os elefantes que morreram em seus estábulos tiveram que ser despedaçados ali mesmo nos dias seguintes, sendo que, como conta Heck, homens se arrastavam dentro das caixas torácicas dos paquidermes e revolviam montanhas de tripas. Essas imagens de horror nos deixam especialmente estarrecidos porque rompem os relatos do sofrimento vivido pelos seres humanos, em certa medida pré-censurados e estereotipados. E pode ser que o terror que nos assoma ao lermos passagens como essas também decorra da lembrança de que o zoológico, que surgiu em toda a Europa graças à necessidade de demonstração do poder principesco e imperial, ao mesmo tempo pretendia ser a reprodução do jardim do paraíso. Constata-se sobretudo que as descrições da destruição do zoológico de Berlim, que de fato sobrecarregam o sensório do leitor médio, só não provocaram nenhum escândalo porque provêm da pena de especialistas, que, como se pode verificar, nem mesmo nas circunstâncias mais extremas perdem a razão, sequer o apetite, pois, relata Heck, ‘os rabos de crocodilo, cozidos em grandes recipientes, tinham o gosto de carne de galinha gordurosa’, e mais tarde, prossegue ele, ‘o presunto e a linguiça de urso foram para nós uma iguaria’”.“O zoológico – ele deveria ter constituído uma das partes principais na apresentação dos muitos momentos, horas e anos de horror. Nunca, porém, diz [Hans Dieter] Schafer, consegui ao escrever evocar ‘os acontecimentos terríveis em toda a sua violência’. ‘Quanto mais decidida a minha busca [...], mais eu tenho que entender a dificuldade com que a memória avança’: No que diz respeito ao zoológico, um volume de materiais organizado por Schafer sobre Berlin im Zweiten Weltkrieg [Berlim na Segunda Guerra Mundial] dá uma ideia do que lhe pode ter passado pela cabeça. O capítulo ‘Bombardeios de saturação entre os dias 22 e 26 de novembro de 1943’ contém passagens de dois livros (Katharina Heinroth, Mit Faltem begann’s - Mein Leben mit Tieren in Breslau, München und Berlin [Começou com as borboletas - minha vida com animais em Breslau, Munique e Berlim], Munique, 1979, e Lutz Heck,Tiere - Mein Abenteuer. Erlebnisse in Wildnis und Zoo [Animais - Minha aventura: experiências na selva e no zoológico], Viena, 1952), nos quais se obtém uma imagem da devastação do jardim zoológico por esses ataques. Bombas incendiárias e botijões de fósforo puseram fogo em quinze construções do zoológico. A casa dos antílopes e das feras, o prédio da administração e o casarão do diretor foram completamente incendiados, a casa dos macacos, o prédio de quarentena, o restaurante principal e o templo hindu dos elefantes, seriamente danificados ou destruídos. Um terço dos 2 mil animais que ainda restavam depois da evacuação morreu. Veados e macacos se soltaram, pássaros escaparam pelos tetos de vidro quebrados, ‘surgiram boatos’, escreve Heinroth, ‘de que leões dispararam em fuga até as proximidades da Igreja Memorial do Imperador Guilherme; enquanto, na verdade, eles jaziam, asfixiados e carbonizados, dentro de suas jaulas’. Nos dias seguintes, uma mina aérea arrasa o precioso edifício de três andares do aquário e o pavilhão de trinta metros de comprimento dos crocodilos, juntamente com a paisagem artificial de mata virgem. Agora encontravam-se lá, escreve Heck, entre blocos de cimento, terra, cacos de vidro, palmeiras e troncos de árvore derrubados, lagartos gigantes se contorcendo de dor na água rasa ou caindo pela escada de visitantes; enquanto, no fundo, pela abertura de uma porta escancarada pela explosão, penetrava o clarão vermelho do fogo de Berlim que sucumbia. Também foram horrendos os trabalhos de desobstrução. Os elefantes que morreram em seus estábulos tiveram que ser despedaçados ali mesmo nos dias seguintes, sendo que, como conta Heck, homens se arrastavam dentro das caixas torácicas dos paquidermes e revolviam montanhas de tripas. Essas imagens de horror nos deixam especialmente estarrecidos porque rompem os relatos do sofrimento vivido pelos seres humanos, em certa medida pré-censurados e estereotipados. E pode ser que o terror que nos assoma ao lermos passagens como essas também decorra da lembrança de que o zoológico, que surgiu em toda a Europa graças à necessidade de demonstração do poder principesco e imperial, ao mesmo tempo pretendia ser a reprodução do jardim do paraíso. Constata-se sobretudo que as descrições da destruição do zoológico de Berlim, que de fato sobrecarregam o sensório do leitor médio, só não provocaram nenhum escândalo porque provêm da pena de especialistas, que, como se pode verificar, nem mesmo nas circunstâncias mais extremas perdem a razão, sequer o apetite, pois, relata Heck, ‘os rabos de crocodilo, cozidos em grandes recipientes, tinham o gosto de carne de galinha gordurosa’, e mais tarde, prossegue ele, ‘o presunto e a linguiça de urso foram para nós uma iguaria’”.
– Winfried Georg Maximilian Sebald (1944-2001), Literatura e Guerra Aérea, tradução de Carlos Abbenseth e Frederico Figueiredo.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Sobre os bombardeios anglo-estadunidenses às cidades alemãs durante a II Guerra Mundial - parte 1

“‘É praticamente impossível atirá-las nas montanhas ou em campos abertos depois de terem sido fabricadas no país de origem com emprego de tamanha mão de obra.’ A consequência das imposições que prevalecem no processo de produção, das quais nem os responsáveis, sejam eles indivíduos ou grupos, podem se furtar, nem mesmo com a maior boa vontade, é a cidade arruinada que aparece diante de nós numa fotografia anexada ao texto de [Alexander] Kluge. A foto é acompanhada de uma legenda com a seguinte citação de Marx: ‘Vê-se como a indústria, em sua história e em sua existência, que se tornou objetiva, é o livro aberto das forças da consciência humana, a psicologia humana existindo em sua forma [...]’ (grifos de Kluge). A história da indústria como o livro aberto do pensamento e sentimento humanos – é possível que a teoria materialista do conhecimento, ou outra teoria do conhecimento qualquer, subsista diante de tal destruição? Ou não temos aí, pelo contrário, o exemplo irrefutável de que as catástrofes que, de certo modo, preparamos sem notar, e depois parecem irromper de repente, antecipam numa espécie de experimento o ponto em que, de nossa história que por tanto tempo consideramos autônoma, recaímos na história natural?”
– Winfried Georg Maximilian Sebald (1944-2001), Literatura e Guerra Aérea, tradução de Carlos Abbenseth e Frederico Figueiredo.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

[zweite] DICHTUNG AND DIE MARIE...

[¡sem título!]

EU já te vi sorrir tanto
(e gozar também)
Que devo admitir que simplesmente
Não consigo te imaginar chorando.
Não somente gosto de te ver dormindo
Como inclusive
Gosto de dormir abraçado convosco –
Morrer e Ressuscitar...
Pois é, a maioria de minhas amigas e até algumas ex
(sem nomes aqui, sem nomes aqui)
Já foi dito a elas... bem, eu disse a elas sobre nós
Bem, as reações foram das melhores
(e fico muito feliz por isso)
Mas... e se fossem das piores
Bem... quem se importa?
Me importa muito saber se estás bem comigo
Se estiver, o que interessa o resto?
Eu já disse em outros poemas
E seria aqui bem-cabível repetir
Que o que me interessa mesmo
São seus beijos nos meus
E suas mãos nas minhas
Durante
Nossas testas juntas
E olhos fechados
E agora os palestrantes estão falando
Daqui é possível ouvir a chuva
Lembrando d’ocê dormindo enquanto chove
Enquanto o banho
Águia e sabão e água pelo seu corpo
Saudade de seu corpo anexo ao meu
Saudade que às vezes não me deixa sair da cama
Einsamkeitsdichtungsmotiv*
Sehnsuchtsdichtungsmotiv** 
E tu és meu motivo de poesia atualmente
(prosa futuramente)
„Sanmariesdichtungsmotiv“*** 
„Sanmariesnarrativesmotiv“**** 
E hoje então nós para nós não somente em poesia
E me acredite, meu amor:
Eu dificilmente poderia estar mais feliz.

:: 30 de janeiro de 2015 ::

* Do alemão, “solidão como motivo de poesia”
** Do alemão, “saudade como motivo de poesia”
*** Do alemão, “Sanmarie como motivo de poesia”
**** Do alemão, “Sanmarie como motivo de narrativa”

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

(erste) DICHTUNG AN DIE MARIE...................

[¡sem título!]

O Goðr* mais velho da aldeia me chamou pra dizer que Mãe Audhumla** lhe chamou
Em um sonho:
Disse pra me dizer pra eu ser paciente
Que Gunnhildr-do-Marajó*** seria minha em braços de novo
E seus cabelos de mar ondulado seriam de novo meu repouso
Suas mãos de princesa às minhas novamente,
E Sua constelação iluminaria nosso próximo beijo-de-reencontro.
Pelo Pai de Todos!
A melhor lembrança são as faixas presas aos cabelos dela com as cores de Bifrost****
Girando de saia vermelha junto com as outras princesas, primogênitas, secundogênitas e caçulas dos Jarls*****
Batendo palmas marcando ritmo ao redor da Vaquinha-nossa-Mãe. Marinheira-do-Arrozal, Marinheira-do-Arrozal:
Onde estás Vós que não cantando aos meus ouvidos?
Marinheira-do-Arrozal, Marinheira-do-Arrozal:
E Vossa pele com aroma de flores recém-desabrochadas?
Onde está? Onde está?
Minha Princesa-de-Pele-de-Pedras-de-Runas
Capaz de produzir calor de Mußpellheimr****** mesmo que o frio seja de Jotunnheimr*******?
Onde está? Onde está?
A Donzela de Olhos-de-Cor-de-Árvores-Ancestrais que me escolheu como Seu
E que sopra a melancolia e a tristeza embora como Mestre Thor******** sopra os Modi********* de volta a seus lares?
Ser paciente... ser paciente... paciência e frustração
Mãe e Mestra Audhumla, por favor, respondei a Vosso filho:
Ainda falta muito para domingo chegar
Para eu ter outra vez minha Princesa-do-Pavulagem só e somente para mim
Para vê-la à nave do knorr********** com o vento esvoaçando em seus cabelos
E sorrindo para mim?

:: 30 de janeiro de 2015 ::

* Termo para denominar o chefe de um clã da era pré-medieval escandinava.
** Na mitologia escandinava, a vaca que lambeu o gelo que deu origem aos nove mundos.
*** Gunnhildr – a pronúncia correta é Gunnrildár; o “r” tem o som de “r” inicial das palavras “remorso”, “recado”, “recarga”, etc. Do nórdico antigo, significa “princesa da guerra” e/ou “mãe de reis”.
**** Na mitologia escandinava, a ponte do arco-íris que liga Asgard aos outros nove mundos, que são Múspellsheimr, Niflheimr, Álfheimr, Vanaheimr, Svartálfheimr, Jötunheimr, Ásgarðr (também chamada de Ásaheimr), Miðgarðr (também chamada de Manheimr) e Hel.
***** Chefe de um clã da era pré-medieval escandinava.
****** Como dito, um dos nove mundos da mitologia escandinava, mais precisamente a terra dos gigantes de fogo.
******* Como dito, um dos nove mundos da mitologia escandinava, mais precisamente a terra dos gigantes de gelo.
******** O deus do trovão da mitologia escandinava, filho de Odin e Frigga.
********** Termo para denominar o guerreiro de um clã da era pré-medieval escandinava.
*********** Tipo de drakkar, navio curto e largo utilizado pelos vikings que tinha por principal característica uma cabeça de dragão na proa, a conjunção de velas e remos, navegação tanto em águas profundas quanto rasas e usado para o transporte de soldados, mercadorias e nas.

sábado, 17 de janeiro de 2015

CANÇÃO PARA LAURA - conto completo

CANÇÃO PARA LAURA

“Lamento, não o sofrimento
Me lembro do teu falar
Que tem a força da água
Batendo na beira-mar
No coração de quem ama
Sempre tem uma esperança
Que faz os olhos falar”
– Arraial do Pavulagem, “Recado”, Gente da Nossa Terra, 1995.


UM COPO DE PLÁSTICO CHEIO DE CAFÉ AINDA QUENTE E UM CIGARRO ACESO NA MÃO ESQUERDA SOBRE O JOELHO DIREITO ENQUANTO A DIREITA APOIAVA O QUEIXO. Lembrou-se quando era ela treinando e seu pai a observando, mas não àquela distância e degraus acima n’arquibancada. Tinha o cuidado para que as cinzas caíssem no chão e não sob o casaco, a calça e as botas, compradas antes da viagem. Com o polegar da mão do café, ajeitou os cabelos atrás das orelhas antes de mais um gole. Procurava não pensar em nada além dos uchikomi que assistia impassivamente. Fora do ginásio chovia, começando a noite.
– Eles também querem ser astronautas como a senhora – o homem que sentou ao seu lado disse, sem virar-se para ela, que deu mais um trago, soltando a fumaça pelo nariz também sem virar-se para ele. As duas mãos segurando o copo de café, cotovelos nos joelhos. – Eles começaram assim que já podiam andar e aqui estamos – ele continuou, fingindo não vê-la sorrir discretamente. – Vovô disse que eles são mais aplicados como ele, a senhora e eu não fomos. – Ela franziu as sobrancelhas, tomando mais um gole. Virou-se para ele, com o indicador em riste. Trouxe o dedo de volta ao lembrar-se que tinha a idade da neta quando o pai a trouxe para este mesmo ginásio, a este mesmíssimo dojô, para que gastasse melhor sua energia de infante. Até o liceu, pouquíssimas coisas tiravam seus pés do dojô. Mais um trago. – A senhora ainda pretende voltar?
A vida até aquela noite passou rente a seus olhos negros com a mesmíssima intensidade que a expirada de nicotina saiu de suas narinas. Infância. Adolescência. Gravidez. Academia. Mestrado. A convocação para o Saussure por estar pesquisando algo que era estreitamente do interesse deles, sendo recrutada pessoalmente pelo Nobel de Matemática, Fenrisúlfr Hübschmann, lingüísta como ela – ou seja, a proposta irrecusável. E lá foi ela, não contando que seria diretamente responsável pela decodificação do algoritmo que permitia a tradução e compreensão plena da mensagem enviada por eles; e menos ainda em fazer parte de uma missão tripulada, um ano e meio depois, ao planeta deles. Possivelmente sem retorno. Estranhava lembrar da última vez que vira os pais e o filho, mas não d’última vez que adentrara aquele dojô e cumprimentava seu sensei (cuja neta agora era a sensei em exercício, ela lembra que a dita ainda era um bebê quando partiu em missão). Sim, era um’angústia silenciosa e imcompartilhável. Também tentar lembrar d’última vez que fechara o nó do obi já totalmente escurecido. Seria no mesmo dia? Mais um trago e o cigarro quase no fim, tinha outros e o isqueiro em algum bolso do casaco. Olhou para o homem e viu bem fundo dentro de seus olhos, lembrando de quando o tivera em braços da primeira vez, ainda chorando para todo o quarto escutar. “O que foi?”, ele perguntou.
“Nascido em um dojô”, ela lembrou-se de cada palavra, “enrolado em um judô-gi”. Virou-se à frente e mais um gole no café. Lembrou-se de quase desistir de entrar naquela nave, lembrou de que não querer sair da cama àquela manhã. Não foi à única. “Estar sentada em uma poltrona de um veículo interestelar e ver o céu azul enegrecer te dá uma perspectiva muito diferente da vida que levou até então”, escrevera. Apagou o cigarro com a bota enquanto tirava o maço do bolso. Entregou o copo de café ao homem enquanto tirava um cigarro com a boca e procurava o isqueiro em um dos bolsos, sem tirar os olhos dos netos. Acendeu e balançou a cabeça afirmativamente, pegando o copo de café.
– Dobra mais essa perna pra encaixar esse ashi-guruma! – levantou-se gritando, derrubando o café, o que a fez praguejar contra si. Pegou outro copo e o abriu, tomando um bom gole. – O café da sua esposa é ótimo – ela virou-se a ele. – Denize, certo? – ele confirmou. – Catarina, levanta a cabeça! – ela gritou a plenos pulmões novamente – Ajeita esse Kumi-Kata – a neta desejou por um momento ela não estar lá. – Porra é essa, Constantino? ‘Cê nunca vai acertar esse de-ashi-harai virando assim! – o homem estava admirado dela memorizar facilmente os nomes dos netos mas não de sua esposa. No momento seguinte, a criança executou perfeitamente a projeção. – É disso que eu ‘tô falando, porra! Catarina, entra primeiro o ouchi-gari e depois o uki-goshi! – os outros pais e mães no ginásio já estavam realmente incomodados com a gritaria que chegava a ressoar no local. A menina forçou um uki-goshi, quase sendo derrubada, mas o sassae-tsuri-komi-ashi que usara como contra-projeção funcionara – ID RECTE ,CATARINA! – a lingüista vibrou em latim. A neta não entendeu, mas sentiu que era um elogio pela entonação da avó, abrindo um grande sorriso. Mais um gole seguido de mais um trago. – Você tem filhos ótimos – ela estava empolgada, seus olhos brilhavam como sóis.
– Mãe? – ele perguntou.
– Felipe? – ela respondeu. Ele ficou em silêncio, pensando que talvez não fosse o melhor momento de perguntar o que o afligia desde quando ela havia voltado. Ainda era uma criança quando ela havia saído do planeta. Estava mais velho do que ela, que – tal como o resto da equipe – estava só três anos e alguns meses mais velha do que quando foram. Ele ainda estava procurando coragem para dizer a ela que os filhos eram do segundo casamento e que a ex-esposa e a atual não se davam nada bem. Esta última ainda não engolira completamente que a sogra havia voltado de... A anterior nem sonhava com isso, e Felipe não estava nem um pouco disposta a informá-la disso – Filho? – ela perguntou, tomando um gole.
– Eu ia perguntar...
– Ia perguntar qual minha opinião de você ter separado, casado de novo e a Catarina e o Constantino serem seus filhos com a Denize e não com a Lenina? – ela o cortou após um trago, ele arregalou os olhos e franziu a testa o máximo que era possível. – É a sua vida, filho. Nem sempre tudo sai como queremos. Olha o que aconteceu comigo – ela sorriu, levantando o copo como se em saudação. – Não te vi crescer (e me odeio por isso), mas você me deu netos lindos – olhou para as crianças no dojô – e eu prometo não repetir essa mancada – tomou um gole e ofereceu o copo a ele, que não entendeu. – Bebe – ela disse –, é a parte que você aceita minha promessa.
– Como a senhora sabe de tudo isso? – ele perguntou já com o copo na mão e tomando o gole. Ela sorriu. “Ora”, ela deu uma tragada antes de fazer uma face deneuveana para dizer que, como integrante do Projeto Saussure, tinha acesso a “documentos muito legais, como...” – Meu arquivo pessoal feito a partir de dados que o governo federal tem? – a pergunta a fez abrir um grande sorriso enquanto pegava seu grande copo e fazer uma cara de “é, é isso ai” e tomar um bom gole enquanto Felipe estava bastante admirado. “Ei”, ela disse com os olhos nos netos, “mães precisam saber”, ela sorriu para ele. “O sorriso dela não mudou nada”, ele pensou, lembrando de quando era uma criança e ela sorria mais radiante que o sol quando o via. “Mas não era isso que você ia perguntar”, ela disse.
Mais um trago. Mais um gole e os olhos nele. Sobrancelhas em riste. Olhos nos filhos, olhos nos netos.
– O que a senhora viu lá? – ele perguntou. – Na viagem? – as perguntas foram sem rodeios. Ela fechou a cara. Bateu com as pontas do anular e do mindinho esquerdos na testa, olhos baixos, um trago, um longo trago. Levantou a cabeça para expirar pelo nariz e ver os netos. 
– Eu responderia se não tivesse um satélite me monitorando e gravando tudo o que digo, faço e escrevo – mais um trago, baixou os olhos. – Os militares não são os caras mais legais do mundo pra compartilhar segredos, sabe? – sorriso sem dentes. A velha cara de “você sabe como é”. – Você não ia acreditar se eu te disser onde eles colocam escutas. Você precisa ouvir quando dá interferência e dá pra ouvir a conversa do pessoal que grava o que eu falo – o filho parecia não acreditar no que estava ouvindo, achou que ela estava enlouquecendo completamente. Ela segurou o riso. – Lívia? Mariantônia (eu adoro esse nome!)? Elizabeth? Fernanda? Vocês estão aí, meninas? Eu sei que sim. O bebê da Fernanda já nasceu? Tomara que sim. – “A viagem a deixou pirada de vez”, Felipe pensou. Ela deu mais um trago no café.
Sim, ela havia realmente enlouquecido. Não pelo que viu quando chegou ao planeta deles; pela forma que a sociedade havia se desenvolvido; como foram obrigados a criar tecnologia para recriar seus recursos naturais; pela ciência e tecnologia ultra-avançada que não era nociva ao meio ambiente; por descobrir o quanto a ciência e a tecnologia terráqueas ditas “avançadas” eram não somente primitivas e o quão estavam sendo executadas de maneira errônea; como conseguiram ser triunfantes frente a três povos invasores que desejavam conquistar o planeta pela posição estratégica e como utilizaram os avanços científico-tecnológicos destes para iniciar uma nova era de renascimento de seu planeta, que fora exaurido tanto pela superpopulação quanto pelas guerras internas e contra os forasteiros. Não, não por isso.
Com exceção de Hübschmann, Clarissa Peyremaure Tadeu Henrique Banhos Monegaglia (que se correspondiam com os pais e os conjugues), ninguém da missão tripulada até lá tinha contato com seus parentes no planeta Terra. O que definitivamente não quis dizer que eles não tinham notícia do que aqui ocorria durante a incursão.
Seu pai havia falecido e o filho deixado justamente a tios e primos que ela não era afeita. O aborto de uma amiga. O parto de outra que a acabou matando a posteriori por erro médico. O aborto natural da primeira esposa do filho que ele e a dita nunca saberiam pois o médico também trabalhava para o Projeto Saussure – e não seria ela que poderia sequer pensar em contar-lhes.
Durante a missão, a equipe teve a “sorte” de ver como alguns dos invasores capturados ainda vivos (por animação suspensa) eram torturados ainda na época da guerra – uma prática considerada de “boas-vindas” por seus anfitriões. Nenhum dos filmes de terror vistos por eles nem a pior das torturas a prisioneiros vistas por Monegaglia a vivo ou em vídeo chegava nem perto do que viram naquela tarde. Resultado: uma semana sem dormir e praticamente uma sem dormir, à base do equivalente deles a café e deixando o estoque de cigarros praticamente no fim. Souberam qual a verdadeira origem do universo e qual o verdadeiro papel dos humanos nele. Da invasão do planeta e da transformação deste em um posto avançado para que fosse feito tanto um porto interestelar neste quanto base de operações para uma guerra da qual a humanidade não se safaria. E, enfim, da confirmação sobre o que um certo escritor havia relatado sobre certos deuses espaciais ancestrais que quase os fez ser executados na principal praça do planeta-sede com transmissão ao vivo para todos os planetas-colônia pelo simples dizer em voz alta dos “nomes profanos e proibidos que jamais devem ser repetidos porque Eles sempre ouvem e as profecias não dizem quando voltarão”.
E ela foi a que voltou menos traumatizada. Teodoro, Lynn e Ronalda se suicidaram menos de um ano e meio do retorno. Hübschmann pediu desligamento total do projeto quando soube da morte da esposa e das irmãs. Peyremaure reabriu a churrascaria do pai, onde praticamente todo o pessoal do Saussure e do Kant que estava em Fortaleza voltou a se reunir desde quando o Velho Ferndinand ainda era vivo, além de umas e outras peças da ABIN e do serviço secreto das Forças Armadas que, segundo lendas, iam realizar suas “transações por fora” devido o lugar não ter escutas. Monegaglia sumiu no mundo e teve seu dossiê arquivado com secreto como muitos “ultra-” como prefixo. A última vez que Bacellar foi visto, estava mendigando em um vilarejo próximo à Moróvia, capital da Libéria. Matsushita se tornou uma das professoras mais promitentes da UFES, mas só consegue dar aula travada de drogas cujos nomes são verdadeiros travas-línguas, todavia não é afastada por suas conexões com o Saussure. Veneziani assumiu a fazenda dos pais no Mato Grosso do Sul e conversa sobre qualquer coisa que não seja aquela viagem. Frieiri – ao total contrário de Revoredo, Monegaglia e Matsushita – enlouqueceu assumidamente e fica pela estação secreta de onde o foguete que os levou até eles decolou, pregando o que viu para o vento e os pássaros, uma vez que os militares concluíram que seria imprudente o deixar perambulando mundo afora, considerando o tanto de malucos que poderiam seguí-lo tomando suas palavras como verdade (mal saberiam...). Somente Dantas e Gurjão continuam no projeto, o primeiro como engenheiro e o segundo como consultor científico de como os terráqueos podem assimilar a ciência e tecnologia dos conquistadores .
À ela, todos os remédios para dormir possíveis com o que tiver no estoque: uísque, vodka, cachaça, rum, conhaque... Isso quando consegue dormir (às vezes, alguns dos utilizados por Matsushita são de muito bom tom). Os... gritos... que ouviu... Ressoavam em volume máximo dentro de sua cabeça. O que descobriu sobre o universo e a humanidade... Fechou os olhos e balançou forte a cabeça para os lados querendo espantar tudo aquilo, tomando uma boa dose de café para que tudo fosse junto. A chuva estava enfraquecendo. Levantou a manga do casaco para ver o relógio de pulso, ainda faltava mais uma hora para o fim do treino. Lembrou de quando voltou, dos ataques de desespero, dos gritos e das lágrimas, do tratamento intensivo para recuperação e de passar quase um ano para ver o filho novamente até se recuperar. Foi numa das primeiras semanas de volta que Teodoro tirou a arma de um guarda e meteu um tiro na cabeça – nem quis saber que desculpa deram para a família da amiga. Na primeira semana fora, Lynn deu de contra com um trem a mais de 250 por hora – com a família dentro do carro.
Chegou a pensar em todas as maneiras que podia se matar quando saísse da reabilitação, de forma que não encontrassem o corpo (porém sempre tinha calafrios ao lembrar-se de Ronalda e como ele simplesmente desapareceu e foi dado como morto, já que nem os militares nem o serviço secreto de quatro países encontraram o cadáver (Hübschmann e Gurjão ironizaram dizendo que ele havia encontrado uma forma de voltar até eles, por isso não foi encontrado)). Não queria o filho e os netos visitando sua lápide em algum cemitério por ai (e ai lembrava de novo do companheiro de viagem). Mas então viu os netos pela primeira vez que não por fotos...
E o filho.
Os cabelos dele estavam quase brancos, rugas pelo rosto, mãos e olhos cansados. Ela não se despediu porque poderia desistir ouvindo os apelos dele. Queria chorar mas todas as lágrimas haviam ido embora durante os crises pós-viagem. “Felipe”, ela disse, abrindo os braços, indo na direção dele. “Mãe”, a recebeu. Mais alto que ela, era como se estivesse abraçando seu pai quando era uma criança. O abraço mais demorado de sua vida. O abraçou por todos os anos que não estiveram juntos, como pedido de desculpas por não tê-lo visto crescer, sofrer, amadurecer e viver. E também por Fátima, por Patrik, por Durval, por Lana, por Regina, por Alexandra, pela turma da universidade, pelos primos e primas, amigos e amigas e, por fim, pelo pessoal do judô, pelo pai e pela mãe. E por Tatiane e Elizandra, por não estar com elas quando mais precisaram... E então sobre os joelhos, o rosto já rubro e os olhos castanhos inchados. Sem conseguir dizer palavra.
– Eu ‘tô aqui, mãe... – seu rosto como o dela. A segurou o mais forte que pôde para que não caísse, para que não esvaísse de seus braços e então nunca mais... – Eu ‘tô aqui...
Abraçar os netos foi como abraçar o filho quando ele voltava da escola ou quando ela de uma viagem, só que duas vezes de uma vez – e quase quebrá-lo ao meio. “Mãe!”, ela sorria ao escutar e o abraçava mais forte. Passaram uma semana falando sobre tudo menos o acontecido na viagem. Até aquela noite, quando ele enfim decidiu tocar no assunto, cerca de um mês depois. Quantas vezes ela dormiu no sofá ou na cadeira da varanda e ele a colocava na cama que a esperava de volta há tanto tempo? Quantas vezes ela não o colocou na cama depois de um dia correndo e pulando? (Ela não esqueceu de Denize, só ficou com a língua queimando para dizer a ela tudo o que vira e lera em seu dossiê e do que ela e sua família haviam aprontado. Todavia não quis estragar o casamento do filho dizendo o que sabia.)
Fim de treino. Hora de voltar. Ela apagou o último cigarro com a ponta da bota antes de bater no ombro dele com o dorso da mão. “Vamos”, disse, “eu dirijo hoje”, desceu a escada com o copo de café na mão. Ele levantou sorrindo “porra, mãe...” para descer. Não tinha a energia e a flexibilidade dela, e acreditava firmemente que ela voltaria ao judô antes do fim do semestre tamanha sua empolgação em sempre acompanhar os treinos dos netos. Ela os abraçou, pegando-os pelas mãos, até que a puxaram para o dojô. “Nãããão, eu não quero tirar as botas”, se lamuriava sorrindo, “já tive um trabalhão pra colocar”. Era cena. Cumprimentou o dojô, foi a até a sensei para fazer o mesmo (“os bons velhos hábitos”, pensou o filho, com as botas em uma mão, seguras pelos dedos) antes de “mostrar algumas coisas de judô” aos netos até a hora de irem realmente embora. E foi mesmo dirigindo até em casa. Ela se divertia com o quanto ele se assustava e se admirava com a rapidez que ela se acostumava com a tecnologia da época. “Tudo para não enlouquecer como o Frieiri”, dizia todos os dias depois de levantar e tomar o primeiro banho do dia, “tudo para não enlouquecer como o Frieiri”.
– Mãe? – ele estava à porta e a ouviu e levantou a cabeça, estava deitada na cama com as crianças. – Ize e eu vamos a um supermercado 24 horas. A senhora quer alguma coisa?
– Traga duas garrafas de Jack’s, dois Cuervo’s e duas Finlândia’s – ela respondeu sem pensar. – E mais cigarros: Malboro vermelho e Hollywood vermelho. Um maço de cada – terminou. O homem suspirou. “Ok, mãe”, não gostava que a mãe bebesse e fumasse tanto, mas... – Felipe? – ele virou as costas e olhou para ela. – Eu te amo – ela disse –, obrigado pelo dia.
Ele sorriu e foi até à esposa.
A TV iluminava o quarto. Um programa sobre grupos folclóricos brasileiros. Assunto de seu interesse. Ela queria fumar mas não o podia fazer perto dos netos. “Que seja”, pensou. O programa da noite seria sobre o sexagésimo aniversário de um grupo paraense chamado Arraial do Pavulagem. Eis que recordou de quando fora a Florianópolis e conheceu alguns conterrâneos de tal grupo, ela gostava de como eles falavam e riam. O sono dos netos infiltrou-se tenramente no corpo dela, que não ofereceu resistência.
Adormeceu. 




[Momento final]

Felipe e Denize estão no carro, ele pronto para acionar a ignição, quando o telefone toca.
– Alô? – ele atende.
– Felipe Revoredo? – voz de moça, ele olha para a mulher. – Não responda. Essa é uma ligação de uma linha não-identificável e não-rastreável. Meu nome é Mariantônia Vergueiro, do serviço de inteligência das Forças Armadas. Pode pedir, por favor, pra professora Laura parar de falar com a gente quando a estivermos monitorando? Não pega bem pra gente, sabe? Pois é, é isso.
O telefone fica mudo. Ele fica completamente sem reação. Busca na lista de chamadas recebidas e não há registro do último número. O telefone toca novamente.
– Ah – a mesmíssima voz –, e diz pra ela que o bebê da Fernanda já nasceu e o nome dele é Leibniz. O pai dele é físico, sabe como é. Tchau.
O telefone fica mudo outra vez e outra vez não há o último número nas chamadas recebidas.
Ele sai do carro com o telefone na mão. Olha para a casa do avô. Olha para o céu.
“Quem diria... ”




:: para a professora Laura Christina Revoredo Rocha [Campo Grande-MS] ::
:: 29 de abril de 2014 e 14 de janeiro de 2015 ::

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

DOIS ESCRITOS EM UMA SÓ MANHÃ.....

Ouvindo: Sugar Kane, A Máquina que Sonha Colorido, 2009.

Heil!
Bom, eu ‘tava conversando com um amigo que conheci no XXXII ENEH, o Anderson (ver Feliz Aniversário, Porra!!!!, de setembro d’ano passado), sobre a falta que sentimos das pessoas que conhecemos em eventos (acadêmicos ou não) e que azedamos de saudade das mesmas. Por causa dessas prosas, escrevi os poemas abaixo ainda hoje - as duas hoje.
Espero que ocê curta, Herr Meister Colombelli.



[!sem título!]

AH!, Irmão-Lobo, eu sei como tu se sentes
Também fico sem dormir ou mesmo também sem dormir direito
Pensando... Sonhando... Lembrando...
Idealizando em como aquela semana que foi uma vida inteira
– nas Semanas-que-Foram-Uma-Vida-Inteira –
Poderia ser melhor
E ainda mais inesquecível.
Lita disse bem que poderíamos morar mais perto para sempre nos visitarmos e estarmos perto quando nos precisarmos.
De manhã desconhecidos, indispensáveis e inseparáveis ao próximo amanhecer
Ah, que Saudade d’ocês todos d’ocês todas
Mesmo aqui em Fortaleza, ainda ouço vossas vozes como se sempre fosse ontem:
Florianópolis, Rio de Janeiro...
AQUI!
Tomara que, um dia, a Saudade cesse...
Tomara que o Amor e o Bem-Querer e a Boa-Vontade nunca se findem!
Devemos... Deveríamos... Podemos... Poderíamos...
Chamar nossos corações de Valhalla por neles estarmos sempre todos reunidos?!?
Fecho meus olhos e ouço Camila-imooto dizer que tudo vai ficar bem e tudo vai ficar certo
E, tal como domingo último, na Praia do Futuro, abro meus olhos com lágrimas suficientes para encher o mar caso este seque um dia...
Mas quem me dera ver a vós todos sorrindo novamente e mais uma vez...!
Mas quem me dera ter Ina-no-Hime em braços e beijos e não em processo de corrosão por sem ela estar...
Mas quem me dera rir alto convosco Claudinei, Clederson e Daniela e Leonardo
Mas quem me dera conversar nerdice com Rodolfo e trocar sorrisos com Júlia Helane, Elisiane e Jacqueline
Mas quem me dera o carisma contagiante de Rodrigo, Juh, Edson e Ricardo
Mas quem me dera vocês todos uma vez... outra vez... novamente...
Para sempre...!
E não mais lágrimas de lembranças, Irmão-Lobo Anderson,
e sim lágrimas por nos termos ao alcance de olhares e abraços.


:: Área 1 do Centro de Humanidades Federal do Ceará ::



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[!sem título!]

E se tudo se basear em Melancolia?
E em Saudade? E em Memória? E em Lembrança?
E em Poesia?
Melancolia e Saudade e Memória e Lembrança fazem parte intrinsecamente inexoravelmente da Cultura da Literatura.
Um dia adoeceriam e quase surtariam de Melancolia e Saudade e Memória e Lembrança...
Angústia e Incompletude...
E parece ser Sempre... sempre estar Entardecendo
O anil do mar e do céu indiferenciadamente em tons de pesar...
O vermelho pintado a carvão do sol e estanho enegrecido do mar como um átomo já submetido à fissão hahniana...
O Vento-Beira-Mar traz as vozes todas ainda tão nítidas
As fotos que não se desgastam no computador que proíbem as imagens nas memórias envelhecerem
Todos iguais que não pertencem a lugar nenhum em separado
Todavia quando unidos formam não somente um lugar próprio mas inclusive uma canção com um poder de um terremoto que pode ser sentido em um país vizinho.
E eu já deveria estar plenamente condicionado a ter o coração partido
Sempre e cada vez com o coração menor com tanta gente chegando, pegando sua parte e partindo via aérea ou terrestre
E até quando? Quando novamente?
Separados somos isqueiros em um show de rock, juntos uma luz que pode ser vista do telescópio Hubble onde quer qu’el’esteja!
Uma país de distância – países de distância nos separam
Saudade e Memória e Lembrança nos juntam inexoravelmente nunca indivisíveis!
Oh... E amor também... E Muito Amor também...!
E quem diria que Guerreiros Vikings pós-modernos contemporâneos
E Poetas Sarracenos (pretensiosamente) undergrounders cyberpunkings
E um dia seremos abençoados e armados por Mestre Allah e Mestre Crom para lutar ao lado de Mestre Odin e Mestre Thor no Ragnarök
Mas, até lá, um Guerreiro Viking pós-moderno contemporâneo e um Poeta Sarraceno (pretensiosamente) undergrounder cyberpunking
permanecerão eretos e em silêncio, cada um em seu extremo da praia,
onde chove incessantemente e perpetuamente
e permanentemente em Melancolia e em Saudade e em Memória e em Lembrança.


:: Passeio Público ::





Bis zu dem breaking fucking neuen Post!

terça-feira, 25 de novembro de 2014

poema para uma ruiva escrito em Fortaleza (mais um...)

Ouvindo: Black Sabbath, Master of Reality, 1971.

(espero que ela goste)


[¡sem título!]

EU lembro da primeira vez que te vi
Nua
Como ainda lembro da primeira vez que te vi
Vestida
Vestida vermelho e branco
E coturnos engraxados e livros nas mãos
Os óculos arredondados com cantos quadrados
Quanto tempo? Quanto tempo faz?
Um ano e um mês e alguns dias da última vez
Que ouvi sua voz
E vi seus olhos sorrindo
Da última vez.
Me apaixono aqui pelo menos uma centena de vezes por dia:
Princesas indo e vindo de seus castelos reinos para os de terceiros
E, como em Casa, me sinto mais um e ainda tão perdido
Sem palavras, sem ter o que dizer
De mãos atadas, sem saber o que fazer
Sem Poesia e Prosa para todas elas
Ah...
Deve ser porque a estadia no Paraíso acabou
Acabou...
E voltar para a Zona de Conforto não mais confortável
De certa maneira... Não me sinto,,,
Aliviado
E muitíssimo menos:
Resignado.
E então o que será? Um passo para a frente, dois para atrás e uma projeção!
Sim, eu volto, volto para os meus Todos, para o meu velho Tudo
Deveria eu me perguntar se voltaria a seus braços, beijos e sorrisos e boa-vontade
(Isto se já não forem de/para outrem?) 
Ainda lembro e sempre lembro que conversamos
É sempre importante e conveniente (e me impede de fazer muita bobagem)
Mas desde já
Desde já saudade deste sol e deste calor,
Vontade de nunca mais voltar:
Para sempre Canoa Quebrada!
Para sempre Praia do Futuro!
O céu azul sem fim e quase sem nuvens...
O mar infinito entre o azul do céu e o verde quase de seus olhos...
Imagine-se tu aqui com a sua não-satisfação com o calor...
Imagine-se tu frente a este mar
E seus cabelos (atualmente lisos ou ainda encaracolados?) esvoaçados pelo vento
Com os pés direto à areia e hipnotizada pelo mar aberto perpétuo
E então
Talvez mais uma apaixonada que nunca esquecerá esta visão...
Imagine-se nós neste cenário
Mesmo não juntos, mesmo somente frente...
Mas ainda assim, nem que estejamos juntos mais uma vez
... pela última vez


:: Área 1 do Centro de Humanidades Federal do Ceará ::
:: Auditório João Albano, durante a palestra Lusophone Studies in the United States: Estudar e ensinar Português em Universidades Norte-Americanas, organizado pela Profa. MSc. Diana Costa Fortier Silva e Fábio Saraiva ::
:: 25 de novembro de 2014 ::